Toda a gente fala de Inteligência Artificial. Nas conferências, nos jornais, na televisão, nas conversas de corredor. A maioria dos...

Toda a gente fala de Inteligência Artificial. Nas conferências, nos jornais, na televisão, nas conversas de corredor. A maioria dos gestores já percebeu que se trata de algo importante, talvez do mais importante das últimas décadas. O problema é o que vem a seguir.

Muitos começaram a utilizar o ChatGPT sem antes terem aprendido como criar um “prompt” eficaz e, claro, os resultados ficam aquém das expectativas. Desapontados, têm a sensação de que estão a perder o comboio sem saber onde fica a estação.

Para encontrar bons candidatos, proponho uma grelha simples. Procurem processos que cumpram três critérios: serem repetitivos e de grande volume; dependerem de produzir ou transformar texto, dados ou imagem; e terem um custo elevado quando há erro ou demora. Onde estes três se cruzam, está quase sempre o maior impacto. Mas não façam este levantamento sozinhos. Quem executa o trabalho todos os dias sabe melhor do que ninguém onde está o desperdício.

Na minha experiência, há três processos por onde quase todas as empresas podem começar.

O primeiro é o atendimento e o suporte a clientes. Respostas a perguntas frequentes, triagem de pedidos, primeira resposta a um email. A IA reduz o tempo de espera do cliente e liberta a equipa para os casos que exigem mesmo uma pessoa. O ganho mede-se em tempo de resposta e em pedidos resolvidos por dia.

O segundo é o marketing e a produção de conteúdos. Textos para redes sociais, campanhas de email, descrições para o website. É uma das áreas onde estas ferramentas mais ajudam, baixando drasticamente o custo e o tempo de produção de cada conteúdo, sem dispensar a revisão humana que garante a qualidade e o tom da marca.

O terceiro são os processos internos de conhecimento. Preservar, classificar e arrumar emails e documentos da empresa, evitando que se percam ou que sejam difíceis de pesquisar, preparar propostas, redigir relatórios, resumir reuniões. Aqui o ganho aparece em horas poupadas por cada colaborador em cada semana e na rapidez acrescida na resposta às solicitações dos clientes.

Mas atenção a uma armadilha: impacto que não se mede não é impacto, é opinião. E opiniões não chegam para justificar um investimento. A forma certa de avançar é a mesma que defendo há anos para validar qualquer negócio, fazer experiências pequenas, rápidas e baratas. Escolham um processo. Meçam o estado atual: quanto tempo demora, quanto custa, com que qualidade. Façam um piloto de poucas semanas. Meçam os resultados. Comparem o antes e o depois. Sem estes números, nunca saberão se vale a pena avançar.

O risco, hoje, não está em experimentar e descobrir que um piloto não correu bem. Experimentar custa pouco e ensina muito. O verdadeiro risco é ficar parado, à espera da certeza perfeita, enquanto os concorrentes vão aprendendo e ganhando vantagens concorrenciais.

Por isso o meu convite é concreto. Esta semana, escolham um processo da vossa empresa que cumpra os três critérios. Descubram qual a sequência de tarefas que estão realmente a ser feitas (e que muitas vezes são diferentes das que estão descritas no Manual de Qualidade) e recolham medidas reais em tempo e custo. Avancem com um primeiro piloto. E assim podem começar a transformar a curiosidade em resultados palpáveis.

* Este artigo faz parte da rubrica “IA sem filtros”, composta por uma série de textos da autoria de António Lucena de Faria.