Depois de abrir em queda, o Ibovespa devolveu parte das perdas e passou a oscilar próximo à estabilidade durante a tarde - dinâmica que se manteve até o fechamento. Ao contrário do câmbio doméstico e dos juros futuros intermediários e mais longos, que piorara…

Depois de ceder até os 167.911 pontos, o Ibovespa devolveu parte das perdas e passou a oscilar próximo à estabilidade ou em leve queda durante a tarde, dinâmica que se manteve até o fechamento. Ao contrário do câmbio doméstico e dos juros futuros intermediários e mais longos, que pioraram bastante ao longo do pregão, a reação ao tom mais “hawkish” (mais inclinado ao aperto monetário) do Federal Reserve (Fed, banco central americano) e ao comunicado lido como mais “confuso” e “dovish” (menos inclinado ao aperto monetário) do Comitê de Política Monetária (Copom) foi bem menos intensa na bolsa local.

Embora a manutenção dos juros americanos e o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano, fossem esperados, a sinalização de ambos os bancos centrais gerou incertezas sobre a inflação e o nível da Selic, o que acabou pesando mais sobre o dólar à vista e os juros futuros. Após oscilar entre os 167.911 pontos e os 169.542 pontos, o Ibovespa fechou em leve queda de 0,10%, aos 168.278 pontos.

O desempenho misto de blue chips também dificultou uma performance mais positiva do índice no pregão. As maiores desvalorizações ficaram para as units do Santander, que cederam 1,33%. Na ponta contrária, as units do BTG Pactual lideraram os ganhos, ao subir 0,91%. Já ações de commodities subiram em bloco: as PN da Petrobras avançaram 0,73%, enquanto as ON da Vale ganharam 0,20%.

A primeira decisão do Fed sob o comando de Kevin Warsh trouxe a projeção de nove dirigentes favoráveis a uma alta dos juros ainda em 2026, sinalizando uma postura mais conservadora do que a esperada pelo mercado. A percepção foi reforçada pelo próprio Warsh, que afastou a possibilidade de cortes no curto prazo ao indicar mudanças na estratégia de comunicação do banco central. Entre elas, está a retirada do chamado “forward guidance” (orientação futura), instrumento que o dirigente classificou como inadequado para o atual ambiente econômico.

Para um gestor de uma grande casa estrangeira, que falou sob condição de anonimato, Warsh acertou ao descartar a necessidade de guidance. O executivo também se disse surpreso com uma postura muito mais focada nos riscos inflacionários, em um momento em que parte do mercado esperava uma comunicação mais dovish. “Ele é muito inteligente e gostei de sua postura”, afirmou.

Nesse cenário, cresceu a percepção de que as taxas de juros deverão subir nos EUA a partir de setembro, enquanto, no Brasil, participantes do mercado ficaram intrigados com o fato de o Copom ter citado um horizonte relevante mais longo do que o habitual.

Para o diretor-executivo da Sicredi Asset, Ricardo Sommer, o Copom acertou ao colocar mais um risco altista ligado à demanda agregada, mas ao mesmo tempo pode ter dificultado o seu trabalho nas próximas decisões ao alongar o horizonte relevante.

Nesse contexto, o diretor-executivo diz que a casa entende que as expectativas de inflação mais longas tendem a seguir se deteriorando nas próximas divulgações do Focus, porque o Banco Central sinalizou maior flexibilidade, o que pode ser interpretado pelo mercado como uma tentativa de continuar cortando juros sem as condições ideias.

Em meio a um cenário de Selic mais elevada por mais tempo no Brasil e de uma possível alta dos juros pelo Fed, Sommer avalia que o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa local deve permanecer mais contido, em virtude do menor apetite a risco global e de um cenário doméstico ainda marcado por incertezas políticas e fiscais.

Hoje, o volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 19,7 bilhões e de R$ 26,3 bilhões. O movimento local diferiu do visto em Wall Street, em que os principais índices terminaram em alta forte: o Nasdaq ganhou 1,91%, o S&P 500 avançou 1,08%, e o Dow Jones subiu 0,14%.