Estudo acompanhou mais de 3.000 pessoas acima dos 60 ao longo de 8 anos e apontou que o mesmo declínio não é observado nas mulheres
Estudo acompanhou mais de 3.000 pessoas acima dos 60 ao longo de 8 anos e apontou que o mesmo declínio não é observado nas mulheres
Marcelo Camargo/Agência Brasil
27.jun.2026 (sábado) - 6h50 Siga o Poder360 no Google
Perguntar a homens idosos quantas horas eles dormem por noite pode ser uma estratégia simples, barata e eficaz para prever e prevenir a perda de mobilidade. Um estudo que acompanhou mais de 3.000 pessoas acima de 60 anos constatou que o padrão de sono prolongado –acima de 9 horas por noite– resultou em passos mais lentos ao longo de 8 anos, mas apenas no sexo masculino. A lentidão da marcha em pessoas idosas é um importante indicador de mobilidade e está associada à perda de independência e ao maior risco de quedas, hospitalização, institucionalização e morte.
A investigação foi conduzida por pesquisadores da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e da University College London (Reino Unido). A análise envolveu dados de 1.582 homens e 1.626 mulheres com 60 anos ou mais que integram o ELSA (Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento). Só indivíduos que não tinham nenhum problema preexistente relacionado à velocidade de marcha foram incluídos e acompanhados por 8 anos.
De acordo com os resultados publicados no Journal of the American Medical Directors Association, os homens acima de 60 anos que dormiam mais de 9 horas por noite tiveram uma redução maior na velocidade de caminhada no período analisado –chegando a perder até ¼ da velocidade inicial. Já sintomas de insônia e noites curtas de sono não tiveram impacto sobre a mobilidade masculina. Além disso, nenhuma associação entre padrão de sono e mobilidade foi observada entre as mulheres.
Com base nos dados do estudo, realizado com apoio da Fapesp, os pesquisadores defendem que o sono prolongado (de mais de 9 horas por noite) deve ser considerado um marcador de risco para a lentidão em homens com mais de 60 anos.
“Embora durmam mais horas, essas pessoas tendem a ter um sono mais fragmentado e com menos fases profundas. Esse tipo de sono de alta quantidade de horas, mas de baixa qualidade, com muitas interrupções, compromete a liberação de testosterona, um hormônio essencial para a manutenção da massa muscular, sobretudo em homens, acelerando assim a perda de velocidade da caminhada”, explicou Tiago da Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar e autor do estudo.
Além da questão hormonal, esse tipo de sono longo e interrompido está associado à intensificação de um processo de inflamação crônica e de baixo grau, característico da velhice e conhecido como inflammaging. Essa condição promove a degradação das células do tecido musculoesquelético, a inibição da síntese proteica e a redução da força e da massa muscular.
“Costuma-se dizer que ter músculo é ter saúde e, na velhice, isso não é diferente. Isso acontece porque o sistema imunológico e o sistema endócrino são mediados pelo sistema muscular”, comentou Alexandre.
No estudo, as mulheres que dormiram mais de 9 horas por noite não tiveram a velocidade da caminhada afetada. Os pesquisadores explicam que isso se deu por causa do perfil hormonal no sexo feminino. “Nas mulheres, outros hormônios, como o IGF-1 e o GH, desempenham papel mais relevante no anabolismo muscular do que a testosterona. Por isso, o impacto não foi significativo”, afirmou Patrícia Silva Tofani, professora da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e coautora do artigo.
Como ressaltam os autores, é esperado que o padrão de sono mude com o envelhecimento. Para pessoas idosas, o ideal é dormir de 6 a 9 horas por noite, enquanto para adultos mais jovens a média recomendada fica de 7 a 8 horas.
“Para o idoso, que fisiologicamente tende a dormir menos e ter mais cochilos diurnos, dormir mais de 9 horas à noite é um padrão incomum, que pode sugerir vulnerabilidade clínica. Por isso, o estudo reforça a necessidade de considerar o sono prolongado como um marcador clínico específico de risco para homens idosos”, ressaltou Alexandre.
O artigo Sex differences in insomnia symptoms and sleep duration as risk factors for walking speed decline in older adults pode ser lido em: jamda.com/article/S1525-8610(25)00556-0/abstract.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 22 de junho de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

