Grupo que rejeita reformas do Concílio Vaticano 2º mantém capela em SP e ordenará 4 bispos sem aval do papa
Grupo que rejeita reformas do Concílio Vaticano 2º mantém capela em SP e ordenará 4 bispos sem aval do papa
Victor-Boscato/Poder360 - 28.jun.2026
Victor Boscato Gabriella Santos de São Paulo
28.jun.2026 (domingo) - 15h11 Siga o Poder360 no Google
A FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio 10), congregação católica em situação irregular perante a Santa Sé, reúne fiéis em uma capela na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, enquanto se prepara para ordenar 4 novos bispos em uma cerimônia marcada para 1º de julho na cidade suíça de Écône.
A ordenação é realizada sem autorização do papa Leão 14. O Vaticano já havia indicado, em fevereiro de 2026, que a medida poderá ser interpretada como uma ruptura formal com a Igreja Católica e resultar em sanções canônicas aos envolvidos.
No Brasil, a FSSPX mantém 14 capelas em 8 Estados e celebra missas segundo o rito tridentino, anterior às reformas promovidas pelo Concílio Vaticano 2º, realizado de 1962 a 1965. Nesse modelo, a liturgia é celebrada em latim, idioma que foi a língua oficial das cerimônias católicas por séculos. Além disso, durante boa parte da missa, o sacerdote permanece voltado para o altar, e não para os fiéis, em um gesto que simboliza que o celebrante e a assembleia dirigem juntos suas orações a Deus.
Os futuros bispos ocupam cargos de destaque dentro da FSSPX e deverão auxiliar na condução das atividades da congregação, que afirma estar presente em 62 países e reunir ao menos 590 sacerdotes e 600 mil fiéis ao redor do mundo.
O Poder360 esteve presente na missa das 9h deste domingo (28.jun.2026) na capela Priorado Padre Anchieta, na Vila Mariana. A celebração durou 2 horas e reuniu cerca de 170 fiéis, com presença equilibrada de homens e mulheres. O uso do véu de renda que cobre os cabelos das participantes é obrigatório, enquanto calças são permitidas apenas aos homens.
O rito foi celebrado pelo padre Rafael Diniz, que conduziu a cerimônia de costas para os fiéis e majoritariamente em latim, conforme as normas da Fraternidade. O sacerdote voltou-se para a assembleia apenas durante a leitura do Evangelho e a homilia —momento em que o pároco dirige uma reflexão aos fiéis—, ambas realizadas em português.
A capela reúne frequentadores de diferentes faixas etárias, de crianças a idosos. Entre os presentes, havia famílias inteiras, jovens adultos e adolescentes.
O pesquisador Victor Gama, mestre em Ciências da Religião pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e estudioso do catolicismo tradicionalista, afirmou que esse perfil é recorrente entre os frequentadores da FSSPX.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio 10 foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. O grupo surgiu como reação às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano 2º, assembleia mundial de bispos realizada entre 1962 e 1965 que promoveu a maior reforma da Igreja Católica na era moderna.
Entre as reformas implementadas pela Igreja Católica naquele período, estavam a substituição do latim pelos idiomas locais nas missas, a ampliação da participação dos leigos e uma maior aproximação com outras religiões.
Segundo Gama, o conflito entre a FSSPX e Roma não se restringe à missa em latim. Na avaliação do pesquisador, o grupo também rejeita mudanças promovidas pela reforma em áreas como a teologia, os sacramentos e a disciplina da Igreja.
De acordo com a instituição, Lefebvre e seus seguidores consideravam que as mudanças representavam uma ruptura com a tradição católica.
O conflito atingiu seu ponto mais crítico em 1988, quando o arcebispo ordenou 4 bispos sem autorização do papa João Paulo 2º. A decisão resultou em sua excomunhão, considerada a maior penalidade do catolicismo.
Apesar do conflito, as relações entre Roma e a fraternidade passaram por períodos de aproximação. Em 2009, o papa Bento 16 revogou a excomunhão dos bispos ainda vivos ordenados em 1988. Em 2016, o papa Francisco tornou permanente a autorização para que sacerdotes da fraternidade ouvissem confissões validamente. No ano seguinte, permitiu que, em determinadas circunstâncias, celebrassem casamentos com delegação da autoridade eclesiástica local.
A presença da congregação no país ganhou força nos anos 2000, especialmente depois da reconciliação entre a Diocese de Campos, no Rio de Janeiro, e o Vaticano. Fiéis que rejeitaram o acordo passaram a apoiar a atuação da fraternidade em território brasileiro.
Hoje, o grupo mantém 14 capelas distribuídas por São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará, Piauí e Maranhão. Gama argumenta, porém, que sua atuação se expande para além do número de igrejas.
Embora mantenha capelas em diversas cidades brasileiras, a fraternidade atua de forma independente das dioceses locais. Segundo a Arquidiocese de São Paulo, a congregação não possui vínculo institucional com a Igreja paulistana nem está submetida à autoridade do arcebispo da capital.
A ordenação marcada para 1º de julho representa um novo capítulo do impasse entre a fraternidade e a Santa Sé.
O grupo pretende nomear 4 novos bispos para garantir a continuidade de suas atividades ao redor do mundo. O Vaticano, porém, não autorizou as sagrações, cenário que se assemelha ao episódio de 1988 entre Lefebvre e o papa João Paulo 2º.



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