Entenda a rivalidade entre Inglaterra e Argentina, marcada por 1966, Guerra das Malvinas, Maradona, Beckham e o duelo de Messi em 2026.

Quando Argentina e Inglaterra entrarem em campo nesta quarta-feira (15), em Atlanta, pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, estarão disputando muito mais do que uma vaga na decisão do Mundial. O confronto reúne uma das rivalidades mais intensas da história do futebol, construída ao longo de seis décadas por episódios que misturam esporte, política, guerra, orgulho nacional e alguns dos momentos mais emblemáticos já vistos em uma Copa do Mundo.

Ao contrário dos grandes clássicos entre clubes, normalmente alimentados por disputas locais ou regionais, a rivalidade entre argentinos e ingleses nasceu de acontecimentos históricos que extrapolaram o gramado. Ela envolve ressentimentos que atravessaram gerações e produziram partidas que permanecem vivas na memória coletiva de ambos os países.

A semifinal desta Copa ainda traz um ingrediente inédito: será o primeiro confronto de Lionel Messi contra a seleção principal da Inglaterra em uma competição oficial, justamente em um jogo que vale uma vaga na final do Mundial.

Embora as tensões entre os dois países tenham raízes anteriores, o futebol transformou o antagonismo em um fenômeno global durante a Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra.

Nas quartas de final, os donos da casa venceram a Argentina por 1 a 0 em uma partida marcada pela violência e pelas decisões controversas da arbitragem.

O capitão argentino Antonio Rattín foi expulso após protestar contra o árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que alegou não entender o espanhol falado pelo jogador. A expulsão provocou enorme indignação na delegação argentina. Rattín se recusou a deixar o gramado por vários minutos e chegou a sentar sobre o tapete vermelho reservado à família real britânica, gesto interpretado como provocação.

Após a partida, o técnico inglês Alf Ramsey recusou qualquer aproximação entre as equipes. Impediu seus jogadores de trocarem camisas com os argentinos e classificou os adversários como “animais”, declaração que ajudou a transformar um jogo duro em uma rivalidade permanente.

A violência daquele confronto também reforçou a necessidade de mecanismos disciplinares mais claros. Pouco tempo depois, a FIFA adotaria oficialmente os cartões amarelo e vermelho, que estrearam na Copa de 1970.

Se 1966 acendeu a rivalidade esportiva, a Guerra das Malvinas, em 1982, deu a ela uma dimensão completamente diferente.

Durante pouco mais de dois meses, Argentina e Reino Unido entraram em conflito pelo controle das ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos). A guerra terminou com vitória britânica, deixou centenas de mortos e provocou profundas consequências políticas e sociais na Argentina.

A derrota acelerou o fim da ditadura militar argentina e abriu caminho para a redemocratização do país em 1983.

Quando as duas seleções voltaram a se enfrentar quatro anos depois, na Copa do Mundo do México, o futebol passou a carregar também o peso das lembranças da guerra.

As quartas de final da Copa de 1986 são consideradas por muitos o jogo mais emblemático da história dos Mundiais.

No Estádio Azteca, Diego Armando Maradona protagonizou dois dos gols mais famosos já marcados.

O primeiro entrou para sempre na história como a “Mão de Deus”. Aos 51 minutos, Maradona disputou uma bola aérea com o goleiro Peter Shilton e usou discretamente a mão esquerda para empurrar a bola para o gol. A arbitragem validou o lance apesar dos protestos ingleses.

Quatro minutos depois, o camisa 10 argentino marcou aquele que seria eleito pela FIFA como o Gol do Século. Recebeu a bola ainda no campo de defesa, driblou praticamente metade da equipe inglesa e finalizou diante de Shilton, completando uma jogada considerada uma das maiores obras-primas do futebol.

Anos depois, Maradona admitiu que o primeiro gol foi intencional.

Mais do que isso, afirmou que aquele lance representava uma espécie de “vingança simbólica” pelos argentinos mortos na Guerra das Malvinas.

A Argentina venceu por 2 a 1 e seguiria até conquistar o título mundial, consolidando Maradona como herói nacional. Na Inglaterra, porém, ele passou a simbolizar uma das maiores frustrações esportivas da história do país.

Doze anos depois, outra geração escreveu um novo capítulo.