Sem a delação premiada de Daniel Vorcaro, integrantes das equipes envolvidas na investigação do caso do Banco Master se preocupam com os caminhos para a recuperação de valores desviados e ocultados no exterior. Interlocutores do Ministério Público, da Polícia Federal e mesmo do STF (Supremo Tribunal Federal) têm manifestado o receio diante do fracasso da delação. Leia mais (06/23/2026 - 23h00)

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23.jun.2026 às 23h00

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Sem a delação premiada de Daniel Vorcaro, integrantes das equipes envolvidas na investigação do caso do Banco Master se preocupam com os caminhos para a recuperação de valores desviados e ocultados no exterior. Interlocutores do Ministério Público, da Polícia Federal e mesmo do STF (Supremo Tribunal Federal) têm manifestado o receio diante do fracasso da delação.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) rejeitou a proposta apresentada pelo ex-banqueiro no último dia 15, quatro dias depois de a Polícia Federal ter feito o mesmo. Foi a segunda tentativa frustrada de delação —a primeira ocorreu em 20 de maio.

Autoridades que participam das negociações afirmaram à reportagem, sob reserva, que as portas não estão fechadas a Vorcaro, mas ele precisa ampliar os relatos e, como mostrou a Folha, não mentir.

Uma das razões da insistência dos investigadores em negociar um acordo com o ex-dono do Master é a agilidade que a colaboração gera na repatriação de valores supostamente obtidos de forma ilícita.

Sem a delação, a operação de retomada dos valores se torna "bem mais complexa", "muito difícil" ou uma "corrida de obstáculos", segundo investigadores.

Existe ainda o risco de perda dos recursos pelo processo tradicional —ou seja, esperar a ação tramitar, a eventual condenação do ex-banqueiro e o trânsito em julgado, além de os investigadores encontrarem os valores por conta própria.

O arranjo mais usual, na falta de um tratado específico sobre partilha de ativos, é a divisão pela metade dos recursos localizados. A lógica é a de que os outros países também movimentaram suas máquinas, promotores, policiais, juízes, e, assim, gastaram dinheiro no auxílio à recuperação brasileira.

O Brasil tem tratado assinado apenas com o Cazaquistão, além de um do Mercosul, mas que ainda não está em vigor, que estabelece os parâmetros de negociação para a divisão dos valores recuperados.

A proposta de delação apresentada pela defesa do ex-banqueiro, segundo pessoas que acompanham as apurações, propôs a devolução de cerca de R$ 40 bilhões em dez anos. Tanto o valor quanto o prazo desagradaram os integrantes da PF, da PGR e do STF, que defendem a devolução completa do dano, estimado em cerca de R$ 60 bilhões.

O interesse em uma colaboração premiada se dá, no geral, de acordo com a legislação, pela identificação de coautores, a localização de provas e também a recuperação de ativos —a depender do crime, há também a localização de vítimas.

Envolvidos nas conversas com Vorcaro têm afirmado que a investigação já tem, de forma autônoma, muito material reunido, além daquele colhido por meio das operações. Ainda, que o caso não chegou à metade e, portanto, há mais elementos a reunir por conta própria. Dessa forma, os investigadores têm afirmado não dependerem da delação de Vorcaro para uma eventual condenação.

Mas, por outro lado, a disponibilidade do ex-banqueiro em colaborar faria a repatriação de valores no exterior pular várias etapas.

Um integrante da equipe de negociação afirmou que o grupo sabe que existe dinheiro remetido ao exterior, mas não "onde ou quanto", e esse seria um dado importante que ele poderia levar para a mesa.

Pessoas ligadas à investigação afirmam ser muito mais difícil o rastreio e a recuperação desses valores sem a participação de Vorcaro. Além disso, há mais tempo hábil de a organização criminosa realocar dinheiro e bens, vender imóveis, movimentar recursos entre offshores.