Jules Rimet foi o homem que transformou o futebol num espectáculo global. Visionário, foi o grande impulsionador do Mundial. É a figura mais importante da prova sem nunca ter brilhado em campo.

Falar de Jules Rimet é falar do homem mais importante da história do Campeonato do Mundo e que nunca brilhou dentro das quatro linhas. Parece paradoxal, mas é a melhor forma de descrever os muitos anos que o francês dedicou ao futebol, tornando-o num espetáculo global ao alcance de todos. Nascido a 14 de outubro de 1873, Jules Ernest Séraphin Valentin Rimet passou toda a infância em Theuley, uma pequena localidade rural do departamento de Haute-Saône, localizada a 30 quilómetros de Vesoul. Rimet nasceu numa família modesta e morava com o avô, Charles, que era agricultor e moleiro, depois de o seu pai, que também era agricultor, ter sido obrigado a ir trabalhar para Paris por conta da crise agrícola provocada pela Grande Depressão do final do século XIX, que afetou grande parte da Europa entre 1873 e 1896.

Foi na década de 90 do século XIX que Jules Rimet começou a desenvolver os seus projetos, criando uma união social no seu bairro em Paris, para lá de se ter juntado a dois grupos católicos, integrando o movimento da democracia cristã. Na política, fez parte da lista que levou o seu cunhado, Georges Delavenne, a ser presidente da Câmara. Contudo, foi a 21 de fevereiro de 1897 que criou um dos maiores legados da sua vida: o clube de futebol Red Star, que atualmente está na Segunda Divisão francesa.

Com apenas 23 anos, Rimet juntou-se ao irmão Modeste e a vários amigos para criar o clube, com a origem do nome a derivar, ao que tudo indica, da influência inglesa da governanta que trabalhava na sua casa. Inicialmente, o Red Star começou por seguir os valores humanistas de Rimet, acolhendo crianças e jovens provenientes de famílias pobres. A sua sede começou por ser perto da Torre Eiffel, mas acabou por deslocalizar-se para os subúrbios da capital francesa. Enquanto isso acontecia, Rimet criou um jornal cristão, republicano e democrático, o La Revue, que se viria a fundir com a Le Sillon, uma revista que incentivou muitos cristãos a afastarem-se da monarquia. Para lá do futebol, o francês gostava de poesia, literatura e música, tendo inclusivamente criado uma secção literária e artística no Red Star.

Já no século XX, Jules Rimet integrou a direção da União das Sociedades Francesas de Desportos Atléticos (USFSA), organização que viria a dar início à criação da FIFA (Federação Internacional de Associações de Futebol, em português). Os estatutos foram formalizados num dos seus escritórios de advogado, em Paris, no ano de 1904. Superada a parte burocrática, a USFSA queria criar rapidamente uma competição mundial, também por iniciativa da Federação Inglesa de Futebol (FA), que à época era a mais desenvolvida em todo o planeta. Contudo, Rimet contrapôs a ideia e defendeu a realização de um torneio de futebol nos Jogos Olímpicos de 1908, mas apenas com jogadores amadores. A USFSA não ficou agradada com a solução e abandonou a organização internacional do futebol, deixando os clubes que lhe estavam alistados proibidos de fazer jogos internacionais.

Para Jules Rimet, a profissionalização do futebol era inevitável e o seu objetivo era ter o futebol acessível a todos, algo que a USFSA não via com bom tom. Em 1910, o francês juntou-se a três clubes de Paris e fundou a Liga de Associações de Futebol (LFA), que se filiou no Comité Francês Interfederal (CFI) e substituiu a USFSA como representante de França junto da FIFA. Com o novo projeto, Rimet viu-se forçado a abandonar a direção do Red Star e, em 1914, foi nomeado representante do CFI na FIFA. Em 1917 teve conhecimento de um projeto de Henri Delaunay, então secretário do CFI, que queria criar um torneio de eliminação direta em homenagem a Charles Simon, presidente do CFI que foi morto em 1915. Questionado por Delaunay, Rimet viu com bom agrado o projeto, dando assim o mote para a criação da Taça Charles Simon que, em 1919, passou a chamar-se Taça de França, nome que mantém até aos dias de hoje.

Coupe Charles Simon @LA_FSCF @FFF Une superbe coupe France que j'ai pu touché. Merci @JP_Papin pic.twitter.com/G7F3hLFIMg

— Gérard Santoro (@gerard_6110) May 28, 2017

Pelo meio, Jules Rimet sobreviveu à Primeira Guerra Mundial, onde ocupou o posto de tenente de infantaria. Fruto do seu trabalho, chegou a receber condecorações do Estado francês e, quando voltou ao futebol, acreditava que o desporto podia ser determinante para aproximar os povos que foram separados no campo de batalha. De regresso ao futebol, Rimet foi eleito presidente da Federação Francesa de Futebol (então FFFA) em abril de 1919. No cargo viu o seu Red Star vencer a Taça de França, a principal competição da época, entre 1921 e 1923 e em 1928. Alguns anos mais tarde, em 1938, Rimet viu parte dos jogadores do campeonato francês ameaçarem fazer greve, mas conseguiu levar por diante a sua ideia de profissionalizar o futebol francês.

A partir daí, Jules Rimet continuou a ganhar espaço dentro da FIFA, ainda como presidente da FFFA. Foi nessa condição que se opôs à exclusão dos países derrotados na Primeira Guerra Mundial, como exigiam os britânicos. Contudo, a 1 de março de 1921, o francês foi eleito presidente da organização que tutela o futebol mundial, numa época em que a instituição estava na mó de baixo e não conseguia reerguer-se depois do conflito mundial, passando até por dificuldades financeiras. Nessa altura, os conflitos entre as federações eram evidentes e apenas 12 delas estavam alistadas na FIFA, numa lista que não incluía os britânicos, o Brasil e o Uruguai. Para Rimet, a FIFA servia para unir a família do futebol em todo o mundo, inspirando-se na visão universal dos valores cristãos que lhe foi incutida durante o seu crescimento. Nesse sentido, sempre se mostrou relutante em apoiar o desenvolvimento das federações continentais, em particular as europeias, por considerar essa medida uma ameaça à união global.

Viagem de 16 dias com a Nike, bolas e o golo de El Manco: as histórias do Mundial de 1930 (organizado e ganho pelo Uruguai)

A primeira organização do Mundial foi entregue ao Uruguai, que era o bicampeão olímpico e comemorava o centenário da sua independência, e que se comprometeu a cobrir todas as despesas relacionadas com as viagens. Os europeus não concordaram com a escolha por considerarem o local distante e por desprezarem o futebol sul-americano. Assim, só França, Bélgica, Roménia e Jugoslávia aceitaram participar, sendo que Rimet fez a viagem, no navio SS Conte Verde, com três dessas equipas, transportando consigo o troféu que seria entregue ao vencedor. Curiosamente, o troféu que foi desenhado pelo francês Abel Lafleur em referência à deusa grega Nike ganhou o nome de Jules Rimet em 1946, quando este completou 25 anos na presidência da FIFA. O nome manteve-se até 1970, ano em que o Brasil conquistou definitivamente a taça com a conquista do seu terceiro Mundial, o que levou a FIFA a criar o troféu atual.

O torneio acabou por ser um sucesso desportivamente e comercialmente, apesar de ter tido pouco impacto na Europa e de ter gerado conflitos nos dois países finalistas, o Uruguai e a Argentina. Desta forma, a criação da competição deixou de ser questionada, com a ideia de Rimet a vingar logo à partida. A segunda edição aconteceu em 1934 e foi antecedida de uma inédita fase de qualificação. O sucesso mediático também começou a ser evidente, com a rádio a acompanhar a competição pela primeira vez. Contudo, as polémicas voltaram a aparecer, começando pela escolha de Itália, de Benito Mussolini, como país organizador, com o regime fascista a usar a competição como promoção, mas Rimet sempre bateu o pé contra a ideia de misturar desporto e política.

A prova contou com 12 participantes europeus em 16 e o Uruguai desistiu de participar em protesto, mantendo a sua posição em 1938, juntamente com a Argentina. A terceir