Protagonista de "Elize: Sombras de uma Mulher", Lorena Comparato fala à CLAUDIA sobre interpretar uma das personagens mais controversas do país

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

“Elize: Sombras de uma Mulher”, que estreou nesta quarta-feira (22) na Netflix, revisita um dos casos criminais mais conhecidos do Brasil sob uma perspectiva ficcional. Na produção, Lorena Comparato dá vida a Elize Matsunaga e acompanha a trajetória da personagem antes e durante o relacionamento com Marcos Matsunaga, assassinado em 2012.

Em entrevista à CLAUDIA, a atriz falou sobre o desafio de interpretar uma figura tão controversa, explicou como foi o longo processo de preparação para o papel e revelou por que não teve qualquer contato com Elize durante a produção. A seguir, confira a conversa na íntegra.

CLAUDIA: Você sentiu receio em interpretar uma pessoa tão controversa quanto a Elize?

Lorena: “Quando você aceita participar de um projeto como esse, é muito importante ter respeito e consciência de que vai estar falando sobre pessoas que existem ou existiram. Ao mesmo tempo, você tem a liberdade da ficção de contar uma história que possivelmente vai gerar discussões importantes na nossa sociedade. Para mim, foi um baque muito grande imaginar como esse crime bárbaro pudesse ser contado num filme de ficção.

Eu sou muito fã de true crime e já tinha assistido ao documentário sobre Elize na Netflix. Ele foi um dos materiais que usei para compor a personagem. E foi um pouco automático pensar que as pessoas teriam o mesmo impulso que eu: quem viu o documentário gostaria de ver um filme de ficção. Como atriz, é impossível negar que foi uma honra pensar que eu poderia ser protagonista de um filme da Netflix, que é um grande sonho para qualquer artista.

É um crime bárbaro, mas a história tem temas que falam sobre isso e vão muito além desse crime.”

CLAUDIA: O que te fez aceitar o projeto e qual aspecto dessa história te fez embarcar no filme?

Lorena: “Eu fui convidada para fazer o teste pela Marcela Otberg, uma produtora em quem eu confio muito. Quando ela me disse que era da Netflix, já veio um conforto de saber que teria a estrutura e o respaldo de um streaming que eu admiro muito e sempre sonhei em trabalhar.

Quando escuto que o roteiro seria do Rafa Montes e da Mariana Torres, dois roteiristas que eu admiro muito, isso me deu ainda mais vontade de fazer um filme ficcional sobre essa história tão difícil. Às vezes a gente faz projetos por dinheiro, outros por prestígio e outros pelas pessoas. Quando soube quem estava nesse projeto, me interessou entender qual seria o ponto de vista escolhido para contar a história dessa mulher.”

CLAUDIA: O quão diferente foi o preparo para esse papel em relação aos seus trabalhos anteriores e como você encarou o tom dessa personagem?

Lorena: “No meu ofício tem muita gente que acredita muito em preparação e muita gente que desacredita. Nesse projeto, desde o teste, a gente teve preparação com a Maria Sílvia, que é coordenadora de intimidade e fonoaudióloga. Já ali eu vi como era séria a composição dessa personagem. E na feitura do filme não foi diferente.

A Netflix deu toda uma estrutura para a gente: foram 40 dias de ensaio e 40 de filmagem. Fiquei meses morando em São Paulo para mergulhar nessa personagem, e isso foi muito diferente de qualquer coisa que eu já vivi. Geralmente esses processos mais longos acontecem no teatro, mas aqui senti um processo quase teatral, super importante pela densidade e pela responsabilidade de contar uma história como essa.

A composição da personagem aconteceu até o último dia, porque não dependeu só de mim. Eram equipes e equipes compondo essa Elize ficcional. Caracterização, figurino, arte, fotografia, som… muita gente construiu esse contexto para fazer essa mulher se tornar uma personagem existente. E eu fico muito satisfeita com o projeto.”

CLAUDIA: Você chegou a falar com a Elize sobre o filme ou preferiu se basear nos materiais disponíveis na mídia?

Lorena: “Não foi uma questão de preferência. Durante todo o processo, a gente não poderia entrar em contato com absolutamente ninguém que tivesse a ver com o crime ou com a história.

Como atriz investigadora, eu queria o máximo de material possível para compor essa personagem, mas foi muito bom não ter tido interação nenhuma. Com esse distanciamento, ficou muito claro para mim que esse filme é uma ficção e que eu estava construindo a minha própria personagem. Então não houve interação alguma com ninguém.”

CLAUDIA: O filme não ignora Elize como criminosa, mas também não anula que ela também seja uma vítima. Para você, por que é importante mostrar os dois lados da história?

Lorena: “Quando terminei de ver o filme, fiquei muito emocionada. O que mais passava na minha cabeça era a tristeza de a humanidade chegar a certos limites. É uma história muito violenta, um crime brutal. Refleti muito sobre isso e sobre como a gente, como sociedade, tem esses lapsos violentos porque não conversa e não tem conhecimento emocional suficiente para construir dinâmicas saudáveis entre pessoas e casais.

O filme toca em temas como assédio psicológico, dinâmicas conflituosas de casais, diferença de gênero, hierarquia, classe social e desarmamento. São assuntos muito atuais e sobre os quais a gente deve refletir sempre que puder. Ao trazer tudo isso à tona, o filme gera debates importantes. Eu fico muito em paz em não julgar a história nem fazer juízo de valor, mas estou muito curiosa para entender o que as pessoas vão achar do filme.”