Portugal demora a afirmar-se futebolisticamente com a subida das expectativas depois do inédito título europeu de 2016, reconhece Carlos Dinis, ex-selecionado...

"Quando fomos campeões da Europa, muitos destes jogadores eram mais novos e não estavam lá. De alguma maneira, estão a passar um pouco ao lado da expectativa de darem seguimento a isso e a perder oportunidades. O tempo vai passando, o que é inevitável para todos, e escasseando para que tal possa acontecer. É evidente que não é fácil chegar às finais, mas a expectativa é, pelo menos, estar sempre lá perto", disse à agência Lusa o técnico, de 73 anos, que trabalhou na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) entre 1997 e 2009, com 353 jogos efetuados dos sub-15 aos sub-21.

Portugal, detentor da Liga das Nações, foi eliminado na segunda-feira nos 'oitavos' do Mundial2026, ao perder com a Espanha (1-0), vencedora em 2010 e detentora do título europeu, em Arlington, nos Estados Unidos, repetindo os desempenhos de 2010 e 2018 na nona participação, e sétima consecutiva, na fase final da maior competição internacional de seleções.

"É sempre difícil dizer se esta é a melhor geração. Temos jogadores com talento e qualidade, mas não uma equipa perfeita, longe disso, porque há lacunas em algumas posições. Depois, o selecionador disse muitas vezes que acreditava e tinha confiança nos 26 convocados, mas não houve gestão absolutamente nenhuma e isso paga-se a vários níveis", lamentou.

Roberto Martínez está de saída da FPF em fim de contrato, três anos e meio após render Fernando Santos, vencedor do Euro2016 e da Liga das Nações de 2019, com Carlos Dinis a admitir que o treinador espanhol teve "tempo quanto baste para implementar um padrão de jogo", sem expor no patamar principal a "identidade nacional" geralmente visível na formação.

"Os selecionadores têm conceitos diferentes e não estão totalmente identificados com o que se passa no edifício da FPF em termos de seleções. Isto tem acontecido com alguma insistência e o ex-selecionador muitas vezes estava mais preocupado com o que os adversários faziam do que propriamente em ter uma equipa forte, sem medo e mais virada para o que estes jogadores sabem fazer e mostram por essa Europa fora", vincou.

Ressalvando que a Liga das Nações de 2025 "ficará para sempre" como o terceiro troféu luso no escalão sénior, mesmo sem o prestígio de Europeus ou Mundiais, Carlos Dinis esperava mais do conjunto nacional, cujos "indicadores não eram os melhores", após uma qualificação irregular nos resultados e exibições e uma época desgastante para diversos futebolistas.

"O quadro dos últimos tempos não foi o melhor em função das expectativas que sempre se criaram, e com toda a justiça, devido à qualidade individual. A esmagadora maioria deles compete a um patamar bem elevado e disputa normalmente títulos em clubes de topo. Esta seleção não conseguiu impressionar, de todo. Ser eliminado pela Espanha não é desprestigiante, mas sobrou pouco em capacidade coletiva, identidade e gestão", observou.

O primeiro treinador a convocar Cristiano Ronaldo para as seleções jovens defende que o avançado e capitão, de 41 anos, precisava de outra gestão, numa competição em que teve um pleno de cinco titularidades e apenas foi substituído uma vez, a exemplo do Euro2024, quando Portugal foi afastado por França nos 'quartos', através do desempate por penáltis, na Alemanha.

"A importância dele está fora de questão. O que implica e arrasta é óbvio para todos a nível mundial. Agora, as coisas são um bocadinho diferentes em campo, porque os anos passam e vão-se perdendo algumas capacidades, muitas vezes de ordem motora. Por muito que se treine, é inevitável. Por muito que o cérebro raciocine bem, o corpo não responde", enquadrou.

Convicto da necessidade de uma "identificação clara" do papel e do futuro de Ronaldo, que garantiu ter disputado o sexto e último Mundial e avaliará a continuidade na seleção, da qual é recordista de internacionalizações (233) e golos (146), Carlos Dinis vê João Cancelo, Bernardo Silva e Bruno Fernandes, todos acima dos 30 anos, em condições de participarem no Euro2028, a ser coorganizado entre Reino Unido e República da Irlanda.

Rúben Neves e Rúben Dias também vão estar acima dessa fasquia etária no próximo Campeonato da Europa, enquanto Diogo Costa, Vitinha, Pedro Neto, Rafael Leão e João Félix ficarão próximos, num lote do qual fazem parte campeões continentais de sub-17, em 2016, e de sub-19, em 2018.

"Um selecionador tem de ter sempre essa perspetiva do futuro e integrar jovens a pouco e pouco na equipa principal. Se não houver oportunidades, eles nunca aparecerão e há alguns aí à espreita", concluiu Carlos Dinis, que, entre outras fases finais, levou Portugal ao segundo e terceiro lugares nos Europeus de sub-19 e sub-17 em 2003 e 2004, respetivamente.

Portugal necessita de uma renovação progressiva na antecâmara do Mundial2030, que coorganizará com Espanha e Marrocos, após ter chegado aos oitavos de final da edição 2026 sem futebolistas abaixo dos 20 anos, assume Carlos Dinis, ex-selecionador jovem.