Especialistas avaliam que a desaceleração da prévia da inflação fortalece a expectativa de redução dos juros e melhora o ambiente para investimentos

O resultado veio abaixo das expectativas do mercado e foi impulsionado, principalmente, pela queda dos preços dos alimentos. O grupo Alimentação e Bebidas registrou deflação de 0,66%, revertendo a alta de 0,74% observada no mês anterior. O principal destaque foi a alimentação consumida em casa, que caiu 1,14%.

Na direção contrária, o grupo Habitação avançou 0,97% e exerceu a maior pressão sobre o índice, enquanto Transportes teve alta de 0,11%, influenciada pelo aumento sazonal de 11,70% nas passagens aéreas. Ainda assim, a alta foi parcialmente compensada pela redução dos preços dos combustíveis e de produtos industriais.

Para Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, o dado surpreendeu positivamente ao mostrar uma desaceleração disseminada entre os componentes da inflação. “O principal vetor de alívio veio do grupo Alimentação e Bebidas, que registrou deflação de 0,66%, puxado pela forte queda da alimentação no domicílio. Além disso, indicadores importantes para a política monetária, como os núcleos de inflação e o índice de difusão, também apresentaram melhora relevante”, afirma.

Segundo o economista, a média dos cinco principais núcleos de inflação recuou de 0,34% para 0,21%, enquanto o índice de difusão caiu de 60,2% para 48,2%, indicando que menos da metade dos itens pesquisados registrou aumento de preços no período.

Apesar da leitura mais favorável, Rondinelli avalia que ainda é cedo para afirmar que a inflação deixou de ser um problema. “O resultado reforça uma melhora qualitativa importante, mas ainda entendemos que o cenário inflacionário permanece pressionado. Mesmo assim, o dado fortalece a expectativa de um corte de juros na próxima reunião do Copom”, explica.

Os efeitos da desaceleração da inflação também podem ser sentidos no mercado de investimentos em startups. Para Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, um ambiente de preços mais controlados aumenta a previsibilidade para gestores e investidores, reduzindo parte das incertezas que afetam as decisões de alocação de capital. “O IPCA-15 mais baixo é uma sinalização positiva para o mercado de venture capital porque aumenta a previsibilidade sobre inflação, juros e custo de capital, três variáveis que pesam diretamente nas decisões de investimento. Para gestores e startups, um ambiente inflacionário mais controlado reduz parte da incerteza na construção de cenários, permite avaliar rodadas e valuations com maior clareza e pode favorecer uma retomada gradual do apetite ao risco”, afirma.

Segundo Patrus, o chamado “tarifaço” continua sendo um fator de atenção, principalmente pelos possíveis impactos sobre o câmbio e as expectativas econômicas. Ainda assim, ele avalia que a inflação mais comportada reduz o risco de uma transmissão mais intensa desses efeitos para o mercado. “Se essa trajetória de desinflação continuar e as expectativas permanecerem ancoradas, o venture capital pode entrar em um ambiente mais favorável para novos aportes, captação e planejamento de longo prazo. Para o setor, o dado de hoje representa mais previsibilidade e uma perspectiva de menor pressão sobre o custo de capital ao longo dos próximos meses”, conclui.