Mensagens misóginas se disseminam na web com memes, mostra levantamento

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9.jul.2026 às 4h15 Atualizado: 9.jul.2026 às 18h07

A misoginia online mudou de linguagem. Em mais de 90% das imagens classificadas como misóginas por pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia), não havia conteúdo sexual explícito.

Em vez de pornografia, o discurso de ódio contra mulheres circula por memes, montagens e piadas, mostra levantamento que analisou 47.018 imagens.

Nas imagens, mulheres são chamadas de "muié", "fêmea", "vadia", "vagabunda" e "prostituta". Também aparecem termos característicos da machosfera, como "msol", usado para mães solteiras, "honradinha", "beta", "ginocentrismo" e "ginofascismo".

O conteúdo ridiculariza mulheres, ataca o feminismo, questiona leis como a Maria da Penha, defende que elas não ocupem espaços de poder e, em alguns casos, chega a incentivar a violência física.

Ao todo, os pesquisadores identificaram conteúdo misógino em 2.896 imagens, o equivalente a 6,2% do material analisado. A misoginia foi a categoria de risco mais frequente do levantamento, superando violência (3%), nudez (2,1%) e conteúdo sexual explícito (1,2%).

Entre as imagens classificadas como misóginas, 65,2% foram consideradas de intensidade alta ou extrema.

"O que mobiliza esses grupos não é a nudez nem a pornografia. Existe uma relação de profundo desprezo pelo feminino e pela própria mulher. Se você observar alguns desses memes, eles são muito cruéis. Até a sexualidade da mulher é tratada de forma negativa", afirma o cientista social computacional Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA.

Segundo ele, o humor é usado como estratégia para ampliar o alcance desse conteúdo. "Eles procuram mascarar a violência como brincadeira. É uma estratégia extremamente recorrente em grupos radicalizados."

O levantamento analisou imagens que circularam em 1.417 grupos e canais do Telegram, reunidos em um universo de aproximadamente 3,9 milhões de mensagens publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2026.

Nascimento aponta que esses espaços funcionam tanto como porta de entrada para jovens em uma cultura de ataque a mulheres quanto como ambiente de comercialização de conteúdos voltados a esse público.

"Tem muitos influenciadores utilizando esses grupos para vender coisas. Eles servem tanto para aproximar homens jovens dessa cultura masculinista quanto para vender conteúdo pago. Ao mesmo tempo, novos grupos surgem o tempo todo, enquanto outros continuam ampliando a circulação desse tipo de conteúdo", afirma.

Embora o Telegram concentre a circulação desse material, o estudo mostra que ele funciona como um centro de distribuição para outras plataformas.

Dos links compartilhados pelos usuários, 44% direcionavam para o YouTube, 18% para outros grupos e canais do próprio Telegram, 16% para o Instagram e 14% para o X.

Conforme a pesquisa, o YouTube concentra principalmente vídeos de influenciadores da machosfera, entrevistas e conteúdos antifeministas, enquanto o Instagram é usado para disseminar reels de curta duração, ampliando o alcance dessas narrativas.