Gerente-geral da Teva Brasil afirma que o setor avança impulsionado por medicamentos para emagrecimento, genéricos e lançamentos, e diz que a reforma tributária deve ajudar a reduzir o preço dos remédios.

Gerente-geral da Teva Brasil afirma que o setor avança impulsionado por medicamentos para emagrecimento, genéricos e lançamentos, e diz que a reforma tributária deve ajudar a reduzir o preço dos remédios.

Guilherme Waltenberg

de Brasília 4.jul.2026 (sábado) - 6h00 Siga o Poder360 no Google

O mercado farmacêutico brasileiro cresce acima do PIB e acumula expansão de cerca de 11% nos últimos 12 meses, segundo o gerente-geral da Teva Brasil, Roberto Rocha. Para o executivo, o desempenho reflete a demanda resiliente do setor, o avanço dos medicamentos para emagrecimento, o crescimento dos genéricos e a chegada de novos tratamentos ao mercado.

Assista à íntegra (20m27s):

À frente da Teva Brasil desde 2021, Rocha diz que a companhia considera o país estratégico para sua expansão e pretende ampliar a oferta de medicamentos, sobretudo nas áreas de sistema nervoso central, oncologia e saúde mental.

O executivo também afirma que a inteligência artificial já faz parte do desenvolvimento de medicamentos na companhia e vem sendo usada para acelerar estudos clínicos, analisar novas moléculas e tornar processos internos mais eficientes.

Leia trechos da entrevista.

Poder360 – O mercado farmacêutico brasileiro cresce acima ou abaixo do PIB? Quais indicadores mostram hoje a evolução do setor e quais números você considera os mais importantes para acompanhar esse mercado? Roberto Rocha – Historicamente, o mercado farmacêutico brasileiro cresce acima do PIB. A dinâmica do setor de saúde praticamente não sente crises. Hoje, por exemplo, os dados mostram que, até maio, no acumulado de 12 meses, o mercado farmacêutico cresceu cerca de 11% –bem acima do PIB. Esse mercado é dividido, basicamente, em 2 segmentos: o privado, que engloba farmácias, hospitais particulares e outros estabelecimentos, e o público. Grosso modo, essa divisão é de cerca de 60% para o mercado privado e 40% para o público. Tradicionalmente, os 2 segmentos apresentam ritmos de crescimento muito semelhantes. Neste ano, porém, há uma mudança. Nos últimos 12 meses, o mercado privado passou a crescer um pouco mais do que o público, em comparação com o que se observava nos 2 anos anteriores. Antes, era o setor público que registrava um crescimento ligeiramente superior.

Tem alguma relação com a pandemia? Não. O que temos observado é a expansão dos medicamentos voltados ao emagrecimento, as chamadas canetas. Esse é um gasto que sai diretamente do bolso das pessoas e também reflete uma característica muito brasileira. Além disso, há medicamentos novos sendo lançados no mercado e o segmento de genéricos, com preços mais acessíveis, também vem crescendo. Outro fator importante é o Farmácia Popular, que tem contribuído bastante para esse desempenho. Embora seja um programa público, ele entra nas estatísticas do mercado privado porque a distribuição é feita pelas redes de farmácias.

Qual é hoje a participação dos genéricos no mercado e quanto ainda pode crescer nos próximos 5 ou 10 anos? É difícil projetar se essa participação ainda vai crescer. Em termos de unidades vendidas, os genéricos representam uma parcela muito relevante do mercado de farmácias e do consumo de maior escala nos pontos de venda. O Brasil tem cerca de 90.000 farmácias, e os genéricos têm uma representatividade muito importante. Não saberia dizer exatamente se é de 40% ou 50%. Em termos de faturamento, porém, essa participação é menor, porque são medicamentos mais acessíveis e com preços mais baixos.

Nos últimos anos, o Farmácia Popular ampliou o número de áreas terapêuticas atendidas, e a maior parte dos produtos oferecidos são genéricos. Além disso, sempre que um medicamento de grande consumo perde a patente, os genéricos ganham participação naquela área terapêutica. Foi o que aconteceu, por exemplo, com alguns medicamentos para déficit de atenção nos últimos 2 anos. Já os medicamentos para emagrecimento não são genéricos, mas biossimilares, que têm uma característica semelhante. Acho que a participação dos genéricos já chegou ao teto.

A Teva é uma multinacional de origem israelense e presente em dezenas de países. Qual o peso do Brasil na estratégia global da companhia e quais as perspectivas de crescimento? A Teva no Brasil ainda é uma empresa jovem. Em 2026, completamos 20 anos de operação no país. Nos últimos 5 anos, tivemos um objetivo claro de ampliar o número de medicamentos que trazemos para o mercado brasileiro. Nesse período, quase triplicamos nossos resultados. Hoje, o Brasil ocupa uma posição estratégica para a companhia, especialmente nos segmentos em que a Teva é líder global, como inovação para o sistema nervoso central, imunologia e saúde mental. Nossa intenção é continuar crescendo e, ao mesmo tempo, expandir a atuação nos mercados de biossimilares e de genéricos complexos. Vamos seguir lançando novos medicamentos e trazendo para a população brasileira tratamentos nas áreas terapêuticas que mencionei.

Tendo nascido em Israel, os conflitos de hoje no Oriente Médio de alguma forma afetam a cadeia de produção ou os negócios da Teva? Em momentos pontuais, sim. Nos últimos meses, porém, os conflitos não afetaram diretamente a cadeia de produção. Eles fazem a empresa ser mais resiliente e buscar alternativas logísticas para o envio dos produtos. Temos algumas fábricas em Israel, mas não apenas lá. No Brasil, importamos medicamentos de Israel, dos Estados Unidos, da Bélgica e da Alemanha. A logística em Israel se adapta rapidamente. Não houve ruptura no abastecimento, nem no Brasil nem em outros mercados. Além disso, a maior parte da operação global da Teva está fora de Israel. A empresa tem 6 plantas no país, mas conta com 52 unidades de produção no mundo.

O brasileiro frequentemente reclama do preço dos medicamentos. Na prática, o que mais pesa hoje no custo final de um remédio? Há espaço para reduzir preços? O setor farmacêutico é um dos poucos que ainda têm preços controlados no Brasil. Existe uma câmara de medicamentos vinculada à Anvisa que, anualmente, autoriza o reajuste de preços com base em uma fórmula que considera diversos fatores, entre eles a inflação. Normalmente, esse aumento fica próximo da variação geral dos preços na economia. Há, sim, espaço para redução dos preços, e esse foi um dos temas mais debatidos nos últimos 2 anos durante a discussão da reforma tributária. O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam medicamentos. Com a reforma, cerca de 60% dos medicamentos terão a carga tributária significativamente reduzida ou zerada. Isso deve representar uma melhora para a população, com redução do preço pago pelo consumidor. Vamos começar a retirar impostos da cadeia.

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Quais doenças ou classes terapêuticas devem registrar o maior crescimento na demanda e como a indústria está se preparando para esse cenário? As doenças que mais vêm aumentando em prevalência estão ligadas à saúde mental, principalmente no período pós-pandemia. O câncer também é uma área de forte crescimento. Esses são 2 dos principais focos da indústria farmacêutica, tanto global quanto nacional. Além disso, as doenças cardiovasculares e o diabetes seguem ampliando seu impacto sobre o sistema de saúde. Na Teva, temos uma preocupação importante com a enxaqueca, uma condição que pode ter impacto moderado ou elevado na qualidade de vida das pessoas. É uma doença que ainda é quase invisível para boa parte da população, a