Cartazes para teatro traduziam dramas políticos e sociais durante a ditadura militar
O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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27.jun.2026 às 10h00
Está em cartaz até 20 de setembro de 2026 na Caixa Cultural, a exposição "Elifas Andreato — Além da Moldura" que convida o público a percorrer a trajetória de um dos mais expressivos artistas brasileiros, cujo traço vigoroso e coragem estética traduzem, com sensibilidade, a alma do Brasil. A mostra celebra a potência de uma arte que atravessa décadas sem perder a força nem a poesia.
Olhar para a trajetória de Elifas Vicente Andreato (1946-2022) é entender como a arte gráfica pode ser um porto seguro entre a cultura das ruas, a melodia das canções e a urgência política. Menino operário e autodidata, que aprendeu a ler só aos 15 anos, Elifas nunca deixou que a falta de estudos formais limitasse sua visão de mundo. Pelo contrário: transformou sua vivência de classe em uma linguagem visual única, cheia de lirismo e de um humanismo que salta aos olhos.
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Ele ficou conhecido em todo o Brasil como o grande artífice da nossa iconografia musical durante os anos dourados do vinil. Suas capas de disco para nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, Adoniran Barbosa e Tim Maia eram crônicas visuais. Elifas conseguia ler as entrelinhas das canções e o sentimento das ruas, transformando dores e alegrias coletivas em imagens que grudaram na nossa imaginação.
Mas o que muita gente não sabe é que essa mesma sensibilidade transbordava nos palcos. No teatro, Elifas foi um criador total — desenhou identidades, cenários e figurinos, integrando a imagem à palavra com incrível coerência. Seus cartazes já davam o tom do drama que o público encontraria ao abrir das cortinas, eternizando-se na memória cultural do país.
Sua arte gráfica sabia ler a temperatura de textos densos. Em "Equus" (1975), a peça de Peter Shaffer sobre a paixão cega e os instintos de um jovem, a identidade visual criada por ele capturava toda a tensão violenta encenada por Paulo Autran e Ewerton de Castro. Já para a montagem brasileira de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (Edward Albee), espetáculo de 1978 com Paulo Autran e Tônia Carrero, o traço de Elifas soube desenhar o sufocamento doméstico e o jogo cruel de aparências daquele casal.
Quando a política pedia passagem, o traço dele ficava ainda mais firme. Foi assim no cartaz de "Murro em Ponta de Faca" (1979), o doloroso texto de Augusto Boal sobre o exílio, onde Elifas traduziu a solidão e a saudade dos brasileiros longe de casa. No antológico musical "Calabar: O Elogio da Traição", de Chico Buarque e Ruy Guerra, a identidade visual ecoava o grito contra a opressão da ditadura — o espetáculo, censurado em 1973, só chegou aos palcos em 1980.
E ao ilustrar outra peça com Paulo Autran, "A Morte de um Caixeiro Viajante" (1977), de Arthur Miller, ele conseguiu colocar no papel o desespero do trabalhador engolido pelas engrenagens do sistema. Em todas essas criações, Elifas fundia o drama íntimo dos personagens à denúncia social, usando contrastes fortes para falar do confinamento e das pressões da época.




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