Radicado em Londres, músico brasileiro fala ao iG sobre o oitavo disco, os parceiros de criação e o prazer de ainda se surpreender no estúdio

Antes de ser MOMO, Marcelo Frota foi um garoto de 13 anos diante de um violão. Na casa de um amigo, viu o irmão dele tocar e saiu dali com uma certeza: queria fazer aquilo. Os pais o matricularam na mesma professora do jovem. A experiência durou até o dia em que Marcelo voltou à aula com uma canção de Caetano Veloso, tocou, cantou e se emocionou até as lágrimas.

A timidez falou mais alto. Ele nunca mais apareceu. O violão, porém, ficou.

Marcelo seguiu como autodidata, aprendendo ao observar outros músicos, frequentar shows e ouvir discos de vinil e fitas cassete. Aos 15 anos, começou a compor.

“Eu nasci com um dom, mas tive que trabalhar muito para aperfeiçoar. Ralei muito, matei muitas músicas”, conta, rindo, em entrevista ao iG.

Décadas depois, a curiosidade daquele adolescente ainda orienta o artista. Ela aparece em Tum Tum Tum, oitavo álbum de Momo, lançado em 19 de junho pela Agogo Records. Gravado no sul de Londres, onde o brasileiro vive, o disco reúne oito faixas e aproxima MPB, samba, baião, rock, jazz, folk e afrobeat sem tratar essas referências como peças de uma vitrine.

Elas chegam pelo convívio. Pela escuta. Sobretudo, pelas pessoas.

MOMO não foi sempre MOMO. No começo, Marcelo Frota gravou dois discos que permaneceram inéditos, e que ele hoje descreve, sem qualquer cerimônia, como “horríveis”. Anos atrás, um amigo publicou uma dessas gravações no Facebook. A reação foi imediata: “Cara, apaga isso, pelo amor de Deus”.

O nome artístico surgiu quando ele preparava A Estética do Rabisco, primeiro álbum lançado, em 2006. O trabalho lhe parecia tão diferente do que havia feito antes que pedia outra assinatura. A pesquisa aproximou referências distantes: a personagem criada pelo escritor alemão Michael Ende, a figura festiva do Rei Momo e, acima de tudo, a sonoridade curta das duas sílabas.

Havia também um desejo de contraste. As canções de então eram, segundo ele, mais pesadas e tristes. MOMO soava “divertido, meio fofo”, uma pequena fresta de leveza antes mesmo de o público apertar o play.

O recomeço, no entanto, não apagou Marcelo. A música de MOMO continua profundamente ligada ao que o compositor vive e a quem encontra. Em uma trajetória atravessada por diferentes cidades e países, ele aprendeu a desconfiar dos mapas como explicação suficiente para uma obra.

“Os países, as cidades, os bairros são as pessoas. As pessoas é que fazem os lugares”, afirma. “Eu sempre tive vontade de conhecer gente. Em todos esses lugares, procurei o pessoal da música e tentei me conectar de alguma forma.”

Essa disposição ajuda a entender por que uma colaboração, para ele, começa muito antes do estúdio. 

Em Gira, de 2024, MOMO já havia mudado a porta de entrada da composição. Em vez de partir sozinho do violão, de uma harmonia ou de um desenho melódico, passou a criar em ensaios e sessões com bateristas e percussionistas. Tum Tum Tum prolonga essa escolha e soa mais energético do que boa parte dos trabalhos anteriores.

As músicas nascem das levadas, dos improvisos e das respostas de cada integrante. Momo chega com material, mas não se coloca como dono de todas as soluções. 

O título veio de “Egum Eô”, faixa de abertura escrita com Wado. A repetição de “Tum Tum Tum” agradou pelo som e pela forma gráfica, mas ganhou uma camada maior: passou a representar continuidade, resistência e uma carreira que segue adiante sem repetir exatamente os mesmos passos.

“É um som contínuo, um som que não para. Tem uma resistência na música, uma continuidade de toda uma história, de uma carreira, dos discos”, diz.

“Egum Eô” começou durante uma sessão com um baterista. Wado, parceiro na composição, aproximou a melodia de imagens ligadas às religiões afro-brasileiras. No estúdio, MOMO sugeriu uma levada de afrobeat, que se misturou à pulsação brasileira. Quando ouviu o resultado, soube que nenhuma outra faixa poderia abrir o álbum.

“Numa melodia, quando nasce, já existe uma letra a ser desvendada”, afirma. Para ele, uma canção também aponta o lugar que deseja ocupar no disco. 

“Morena” oferece outro retrato desse método. MOMO começou a faixa no violão e a enviou a Marcelo Camelo, que criou a melodia do refrão. A música ainda parecia pedir um piano elétrico, não qualquer um, mas o de Marcos Valle. O veterano aceitou o convite, tocou o instrumento e escreveu a letra do refrão.

No caminho entre Camelo, MOMO e Valle, a melodia foi mudando. Cada ouvido a recebeu e a devolveu com uma curva diferente. Em vez de defender uma versão intocável, Momo se divertiu com as alterações.