Boa aluna, Cremildes Ferreira Bahr preparava-se para entrar no antigo ginásio quando o pai morreu e a mãe, com 20 filhos, disse que ela teria de deixar de estudar para trabalhar, mas que nunca deveria parar de aprender. Leia mais (06/28/2026 - 16h00)

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28.jun.2026 às 16h00 Atualizado: 28.jun.2026 às 21h54

Boa aluna, Cremildes Ferreira Bahr preparava-se para entrar no antigo ginásio quando o pai morreu e a mãe, com 20 filhos, disse que ela teria de deixar de estudar para trabalhar, mas que nunca deveria parar de aprender.

E foi com aprendizado e dedicação que Cremildes conquistou o título de doutora honoris causa pelo Instituto Federal do Paraná, por seu trabalho com o fandango paranaense e a cultura caiçara.

Mestra Mide, como era chamada, tinha ascendência africana, indígena e portuguesa, nascida em Curitiba, em família de músicos e poetas.

Mas foi a terra da mãe, Antonina, no litoral do Paraná, que a fez se envolver em pesquisas de campo sobre o fandango, expressão artística da região.

Ao lado do pesquisador Inami Custódio Pinto, ajudou a resgatar a tradição de bater tamancos usados na dança folclórica. "Construiu uma trajetória própria de dedicação à música e à memória das tradições paranaenses", publicou a prefeitura de Curitiba.

Em 1988, ela formou o grupo de fandango Meu Paraná, levando a cultura local pelo Brasil e para o exterior.

A filha, Veronica Bahr, lembra que como não havia leis de incentivo na época, a mãe lutava para ter apoio, mas conseguia. "Fizemos 13 apresentações na Bélgica. Ela se emocionava muito cada vez que ouvia o fandango."

A música caiçara parecia ser parte de mestra Mide, afirma o amigo Alex Calazans. "Amava o fandango paranaense e escolheu viver em defesa dele."

Em Curitiba, era presença certa em rodas de choro, grupos de samba e carnavais, o bloco Boca Negra a homenageou com enredo sobre sua história. "Nesse último Carnaval, ela ainda conseguiu acompanhar o bloco. O samba foi muito importante para ela", recorda a filha.

Mestra Mide ainda fundou e participou de grandes corais na capital. Foi em um deles que conheceu seu grande amor, Werner Bahr, com quem viveu casada por 50 anos.

"Meu pai era da música erudita, então, além da música popular, também se dedicou à erudita e cantou algumas óperas no Teatro Guaíra."

Além da música, atuou na área social, integrando a Juventude Operária Católica e a Fundação de Recuperação do Indigente (FREI), que depois se tornou a Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba. Lá, ajudou em muitos projetos, entre eles, os chamados carrinheiros, que começaram a atuar na coleta, separação e venda do lixo reciclável.

"Mulher de ação, sempre junto da família e da comunidade, auxiliando os necessitados. Religiosa, generosa, contagiante, artista", afirma o amigo Darci do Espírito Santo.

Em casa, foi uma mãe presente e avó amorosa, que adorava cuidar do jardim e costurar e tinha sempre algo bom para dizer, deixando a casa cheia de gente para lhe ouvir ou lhe pedir benzimento. "Não se vitimizava, sempre achava uma saída", diz a filha, lembrando que ela tratou um câncer de mama, uma pancreatite e se recuperou de um AVC.