Mesmo quem se formou intelectualmente na crítica ao cientificismo tacanho anda estarrecido com a velocidade da erosão da confiança na metodologia científica. Não são só fake news e bolhas ideológicas a corroer seus alicerces por fora; também há fissuras endógenas que se alargam a olhos vistos. Leia mais (06/28/2026 - 08h30)

Jornalista de ciência e ambiente, autor de “A Ciência Encantada de Jurema" (ed. Fósforo)

Link externo, abre página da Marcelo Leite no Twitter

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Edição Impressa Diminuir fonte

Mesmo quem se formou intelectualmente na crítica ao cientificismo tacanho anda estarrecido com a velocidade da erosão da confiança na metodologia científica. Não são só fake news e bolhas ideológicas a corroer seus alicerces por fora; também há fissuras endógenas que se alargam a olhos vistos.

Sempre existiram incentivos perversos para manipular dados e imagens, na competição por posições e verbas de pesquisa, mas com a inteligência artificial a desonestidade deixou de ser artesanal. A obra da ciência entrou na era de sua reprodutibilidade generativa.

Verdade que há também mais meios técnicos para detectar fraudes. Como resultado, cancelamentos (retractions) de artigos científicos têm explodido, mas desconfia-se que o número total de publicações cresça em ritmo muito mais acelerado, que vigilantes robóticos ou humanos não conseguem acompanhar.

Grande quantidade de trabalhos escapa do cancelamento. Mesmo os sepultados podem continuar por aí como zumbis, citados em outros textos ou, mais preocupante no caso da biomedicina, com seus dados assombrando trabalhos de revisão sistemática (aqueles que reúnem estatísticas de vários ensaios para firmar eficácia e segurança de terapias e, assim, orientar a prática clínica).

A chamada medicina baseada em evidências encara a base de dados Cochrane como oráculo sagrado da objetividade científica. Artigos de revisão sistemática que passam por seu crivo acabam fundamentando consensos clínicos e orientando diretrizes de sociedades médicas e políticas públicas.

Uma blitz da própria organização revelou que quase 1% das 9.500 revisões Cochrane abrigam esses artigos mortos-vivos. Começa agora o esforço de identificar os zumbis e verificar se as assombrações a exorcizar invalidariam conclusões do artigo.

É uma gota de racionalidade em face do tsunami de outras fabulações a erodir o valor das evidências. Políticas públicas e diretrizes clínicas hoje se definem também, se não mais, por convicções ideológicas, como se viu na pandemia.

Mal comparando, na ciência do clima o equivalente da Cochrane é o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), saco de pancadas do negacionismo climático. Já passou por críticas merecidas, outras fabricadas, mas sobrevive aos trancos contínuos dados pela indústria dos combustíveis fósseis.

No encontro preparatório para a COP31 da Turquia, concluído com mais impasses em Bonn há poucos dias, o IPCC esteve de novo sob ataque. Países membros da convenção da ONU sobre clima como Arábia Saudita e Índia semeiam dúvidas sobre seus pressupostos e previsões, questionando inclusive a meta adotada em Paris (2015) de limitar o aquecimento global a 1,5ºC.

Pouco importam vidas perdidas. A Organização Mundial da Saúde estima que só na Europa 200 mil mortes evitáveis ocorreram em quatro anos sob ondas de calor como a que ora assola o continente.

Nada que constranja Magda Chambriard, presidente da Petrobras, cuja má fé fóssil desferiu o seguinte ataque contra a ciência da atmosfera e o princípio da precaução: "Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil, olha, fecha tudo, vamos todo mundo para selva e vamos ter um ar maravilhoso".