Morre o ator britânico e neozelandês Sam Neill, aos 78 anos A morte de Sam Neill, nesta segunda-feira (13), voltou a inundar a internet com imagens e vídeos criados por inteligência artificial para retratar o ator após a morte. Conhecido por interpretar o pal…
Por Guilherme Gama, g1 — São Paulo
14/07/2026 03h00 Atualizado 15/07/2026
Necromancia digital; entenda polêmicas do fenômeno que ‘revive’ mortos com IA
A morte de Sam Neill, nesta segunda-feira (13), voltou a inundar a internet com imagens e vídeos criados por inteligência artificial para retratar o ator após a morte.
Conhecido por interpretar o paleontólogo Alan Grant na franquia "Jurassic Park", o ator foi "recriado" como um fantasma entre dinossauros ou chegando aos portões do parque em meio às nuvens.
Imagem de IA cria o ator Sam Neill ao "chegar no céu" com o portão do Jurassic Park — Foto: Reprodução/ X
O mesmo aconteceu em maio, após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos. Entre os vídeos criados por IA, um mostra sua "chegada ao céu" em uma "academia nas nuvens".
As "homenagens" reacenderam o debate sobre a manipulação da imagem de pessoas mortas e os limites do uso da IA. O fenômeno tem um nome: "necromancia digital".
IA cria academia no céu em homenagem da morte de Gabriel Ganley — Foto: Reprodução/ Internet
🔎 A "necromancia" é popularmente conhecida como a prática de se comunicar com os mortos ou invocar seus espíritos. A versão digital descreve o ato de manipular vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas falecidas para gerar conteúdos produzidos com IA.
A tendência é cercada de controvérsias, pois o conteúdo feito por IA pode transformar o luto em um produto e criar "fantoches digitais" de pessoas que não podem mais se defender.
É o que explica Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro "All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data" ("Todos os fantasmas na máquina: a vida após a morte digital dos seus dados pessoais", em tradução livre).
A grande novidade é que a criação dos avatares deixou de depender de pessoas com conhecimento técnico avançado. Hoje em dia, a criação dos chamados "grief bots", ou "robôs de luto", tornou-se mais comum com a popularização das ferramentas de IA.
Plataformas como ChatGPT e Claude, por exemplo, podem ser usadas para transformar os "restos digitais" — mensagens, áudios e vídeos de uma pessoa falecida — em avatares.
Esse uso indiscriminado de ferramentas para "reviver" personalidades também pode distorcer a memória dessas pessoas. Essa é a reclamação de Flávia Christina, filha de Pelé. Recentemente, ela criticou vídeos desse tipo e afirmou ficar desconfortável com imagens do pai: "não são atitudes normais dele".
O assunto talvez chamasse menos atenção quando era usado com mais parcimônia ou quando não havia alternativa. Em Hollywood, dublês e computação gráfica foram usados para concluir as cenas do ator Paul Walker em Velozes e Furiosos 7, lançado em 2015.
No ano seguinte, a franquia Star Wars também recriou digitalmente o ator Peter Cushing em Rogue One: Uma História Star Wars.
No Brasil, o caso de maior repercussão ocorreu em 2023, quando a Volkswagen usou IA para criar um dueto entre a cantora Elis Regina, morta há 44 anos, e sua filha, Maria Rita. A montadora utilizou tecnologia de deepfake para recriar Elis na campanha.
Na internet, as reações se dividiram, e órgãos reguladores passaram a analisar o caso.
O Conar chegou a abrir uma investigação para apurar se a campanha violava o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Além disso, um projeto do senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL) propunha estabelecer diretrizes para o uso de imagens e áudios de pessoas falecidas por meio de IA. Ambos acabaram arquivados.




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