Jornalista, poeta, Noémia de Sousa, que este ano celebraria 100 anos, foi uma mãe cúmplice, "suficientemente próxima para aquecer, suficientemente longe par...

"Achava isso admirável nela, porque é um equilíbrio muito difícil", confessa Virgínia Soares, ou Gina, única filha de Noémia de Sousa, numa entrevista à Lusa no ano em que, em 20 de setembro, se assinala o centenário do nascimento da autora de poemas que marcaram o movimento da negritude a partir de Moçambique.

Da sua poesia, Noémia pouco falava. Na verdade, desvalorizava: "Não tinha noção da importância [dos seus poemas] - 'umas coisas que escrevi e agora já não gosto tanto'", recorda.

Só mais tarde, quando começou a ser convidada para eventos, teve noção do impacto que teve no movimento da negritude.

Em criança, ainda lhe leu alguns poemas, mas também Gina "não ligava nenhuma".

Só em adulta, quando a prima Isabel Noronha usou partes de poemas da mãe num dos seus documentários percebeu como era "tão atual".

Também as sobrinhas-netas Lara e Camila de Sousa recorreram à poesia de Noémia para documentários que realizaram, em mais um exemplo de como os seus poemas, publicados sobretudo no Brado Africano entre 1949 e 1951, tocam várias gerações.

Apesar de ter escolhido Portugal para viver, país com o qual manteve uma relação "pacífica", assumiu-se sempre como moçambicana: "na viagem de barco para Portugal [em 1951], alguém lhe perguntou se era portuguesa de terceira", ao que ela respondeu: "mas moçambicana de primeira", conta Gina.

"Assim que foi declarada a independência [de Moçambique] fez o passaporte e o bilhete de identidade moçambicanos". Mas, só voltou ao país na década de 1980, na altura acompanhada pela filha e pela irmã Camila, a convite das autoridades nacionais.

Quando chegou ao aeroporto chorou ao ver a pista cheia de pessoas negras, porque nunca pensou ver, na sua terra, "pessoas negras a caminhar com orgulho, de cabeça erguida".

Regressaria mais uma vez, em 1996, para a homenagem que lhe fizeram aos 70 anos.

"Falava sempre de Moçambique. Não queria que eu me esquecesse de onde vinha. Cantava-me canções moçambicanas" e algumas histórias da sua juventude. Ainda pensou em regressar, mas acabou por ficar, relata.

Foi no bairro da Mafalala, para onde se mudou ainda em criança, que ganhou consciência da situação em que viviam os moçambicanos.

A poesia e o envolvimento, sobretudo com o seu grande amigo José Craveirinha, nos ideais do movimento da negritude, criaram à sua volta um ambiente que a levou a partir.

"Havia pessoas que questionavam, como é que uma pessoa com sangue indiano, sangue português, como se identificava tanto com o sangue negro?" (a mãe de Noémia tinha origem alemã e moçambicana e o pai goesa, portuguesa e moçambicana).

Em Portugal, onde tinha os irmãos, Noémia conheceu o pai de Gina, também ele vindo da então Lourenço Marques (Maputo), na Casa dos Estudantes do Império.

Tal como ele havia feito, em 1964 rumaram as duas com destino a Paris.

Gina, com cerca de 2 anos, acompanhou a mãe no "salto": Na fronteira, o "passador" ficou com o dinheiro e não apareceu. A mãe angustiada, mas Gina depositou nela total confiança: "arranjou outra maneira", conta.

Chegaram a Itália, passaram "por vários sítios", contaram com "a ajuda de pessoas da Argélia" – "deram-me o nome de Yasmina para passar", para o passaporte falso -, até conseguirem chegar a Paris, onde Gina conheceu fisicamente o pai.

Ficaram a viver nos arredores de Paris até se mudarem para a capital francesa em plena turbulência do Maio de 68, com greve geral e nenhum sítio onde se pudesse comprar comida: "ela angustiada e eu feliz, porque não ia à escola".

Noémia trabalhava na Embaixada de Marrocos em Paris: "quando eu não tinha onde ficar, levava-me para o trabalho e, para me entreter, punha-me a escrever à máquina", recorda.