Com o recorde de feminicídios no Brasil, é cada vez maior também o número de crianças e ...

Com o recorde de feminicídios no Brasil, é cada vez maior também o número de crianças e adolescentes que crescem sem mãe e pai e, em muitos casos, sem assistência adequada para superar o trauma.Ana* tinha apenas 1 ano quando foi baleada pelo próprio pai, no mesmo ataque que matou sua mãe, Cláudia, em junho do ano passado, no sertão da Paraíba. Sobreviveu depois de mais de dois meses internada. Um ano depois, aos cuidados da tia, a menina deve começar a passar por acompanhamento fonoaudiológico para investigar se o atraso na fala tem relação com o trauma que viveu.

Seus três irmãos mais velhos, hoje com 11, 8 e 5 anos, foram acolhidos pelos avós maternos. A família se reorganizou para tentar preencher um vazio que, segundo especialistas, embora não existam dados oficiais, impacta a trajetória de milhares de crianças, consideradas vítimas indiretas da violência de gênero no país.

"Meus sobrinhos ainda passam por terapia com o psicólogo. É uma perda irreparável", conta Adriana, irmã de Cláudia e hoje responsável legal pela criação da sobrinha mais nova. Ela descreve dias em que a filha do meio da irmã, de 5 anos, "chora o dia todo". "Fica vendo foto da mãe e chora, chora, chora."

"Eles lembram direto da mãe. É aquela tristeza para as crianças. Eles nunca vão superar porque eram muito apegados a ela, e ela, a eles, então é muito doloroso vê-los passarem por isso", diz.

Lacuna estatística

A história dos filhos de Cláudia é também a história de milhares de crianças brasileiras que passaram a integrar uma estatística desconhecida: a dos órfãos do feminicídio.

Segundo o Ministério das Mulheres, não há um levantamento oficial sobre quantas crianças perdem as mães para a violência de gênero todos os anos. Diante dessa lacuna, pesquisadores tentam reconstruir essa realidade por conta própria.

Em 2024, apenas considerando o número de feminicídios registrados e a média de filhos por mulher apontada pelo IBGE, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou a existência de 2.300 órfãos. Já o Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina, que rastreia notícias de imprensa mencionando filhos das vítimas, contabilizou 268 crianças e adolescentes dependentes apenas entre janeiro e março deste ano.

O levantamento do Lesfem mostra que, assim como aconteceu com a filha mais nova de Cláudia, em quase um terço (30%) dos casos de feminicídio registrados no ano passado, filhos ou adolescentes chegaram a presenciar o crime.

Desde que a lei do feminicídio passou a tipificar o crime, em março de 2015, mais de 13,7 mil mulheres já foram mortas no Brasil por sua condição de gênero - somente em 2025 foram mais de 1.500 vítimas, segundo o Fórum de Segurança Pública, um número anual recorde.

O recorte racial expõe outra camada de desigualdade: entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas eram mulheres negras, e 36,8%, mulheres brancas.

Segundo as especialistas, o problema ganha ainda mais peso quando se considera o recorte racial no país: no fim de 2024, 51,7% dos lares brasileiros eram chefiados por mulheres, sendo 53% delas negras, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas.

Isso significa que, em muitos casos, o feminicídio não apenas tira a mãe, mas também a principal fonte de renda da casa.

Perder mãe e pai

Para a psicóloga Juliana Prates, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante do comitê científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), em grande parte dos casos, o feminicídio atinge as crianças com uma orfandade dupla: quando o crime é cometido pelo próprio pai, a criança perde as duas referências de cuidado de uma só vez.

"Quando falamos de feminicídio, é efetivamente a perda dos dois genitores, principalmente quando foi cometido pelo pai da criança. De um momento para outro, a criança vai perder as duas figuras de referência e de cuidado", explica Prates.

A psicóloga descreve o fenômeno como uma "dupla vulnerabilidade" para os órfãos: a vulnerabilidade natural da infância somada à perda simultânea dos cuidadores principais. Soma-se a isso o fato de que, na maioria dos casos, o assassinato da mãe não é um evento isolado, mas o desfecho de um ciclo de violência física, psicológica e financeira que a criança já vinha presenciando.

"Tudo o que causou o feminicídio produz também impactos no desenvolvimento dessa criança", diz a psicóloga.

As marcas invisíveis

Segundo Prates, os efeitos do trauma podem se manifestar de formas variadas, inclusive com regressões comportamentais, como voltar a fazer xixi na cama, retomar o uso de chupeta ou apresentar comportamentos retraídos.