Um domingo típico com o clima sempre indeciso de São Paulo. Enquanto sirvo um copo de uma encorpada Belgian Ale e me ajeito na cadeira para organizar as ideia...

Um domingo típico com o clima sempre indeciso de São Paulo. Enquanto sirvo um copo de uma encorpada Belgian Ale e me ajeito na cadeira para organizar as ideias aqui na nossa base da Sociedade Jedi — afinal, já são 11 anos de estrada documentando cada salto no hiperespaço dessa franquia —, me deparo com o esporte favorito da internet moderna: a indignação instantânea baseada em manchetes.

O alvo da vez da fúria do fandom? Ninguém menos que Dave Filoni, o homem de chapéu que há quase vinte anos carrega a tocha do legado de George Lucas.

Se essa galera tivesse rolado a página apenas mais alguns centímetros para baixo, talvez a pressão arterial da galáxia continuasse estável. Filoni, que entende a essência de Star Wars como poucos mortais, não estava reescrevendo o cânone ou sofrendo de amnésia. Ele estava usando uma metáfora dolorosa e belíssima sobre culpa, perda e o peso das nossas escolhas.

Na mesma entrevista, o co-presidente da Lucasfilm elabora o pensamento: Vader destroça implacavelmente qualquer coisa que o lembre de Anakin. Por quê? Porque lembrar do jovem e passional Cavaleiro Jedi é lembrar que ele traiu todos os seus amigos, destruiu a própria vida e o mundo que conhecia. E pior: fez isso por nada. Ele foi enganado por Palpatine e fez a pior troca possível. Como a mente humana (ou o que sobrou dela sob aquele capacete) lida com uma dor insuportável dessas? Criando um monstro que se recusa a aceitar essa verdade.

É poesia pura, meus caros. A armadura negra não é apenas um suporte de vida cibernético, é um sarcófago psicológico. Vader ataca a galáxia com tanta brutalidade em Shadow Lord, ou naquele corredor inesquecível de Rogue One, porque cada golpe do seu sabre de luz é uma tentativa desesperada de calar a voz do garoto de Tatooine que chora de arrependimento dentro de sua própria mente. É a dualidade de um homem quebrado em duas metades irreparáveis.

Um brinde ao Filoni, que continua entendendo a alma dessa história melhor do que ninguém, e um brinde a todos nós que ainda conseguimos nos emocionar com as tragédias de uma galáxia muito, muito distante. Um excelente domingo a todos!