Sonhar sob encomenda talvez seja a última vaidade de uma espécie que já não se contenta em destruir planetas, cidades, relações eSonhar sob encomenda talvez seja a última vaidade de uma espécie que já não se contenta em destruir planetas, cidades, relações e

A premissa é boa, e por algum tempo o filme parece saber disso. Para evitar tumultos durante a longa viagem de colonização, os tripulantes permanecem adormecidos, vivendo sonhos personalizados enquanto seus corpos atravessam o vazio. O problema é que a fantasia, como quase tudo que o homem inventa para suportar a própria fragilidade, cobra juros altos. Quanto mais os passageiros exploram aquele paraíso artificial, mais o sistema entra em colapso; a máquina, sobrecarregada, começa a transformar conforto em cárcere, prazer em delírio, lembrança em ameaça. Todos ficam presos dentro das próprias mentes, submetidos a pesadelos que desestabilizam suas ondas cerebrais e podem matá-los antes que Sailun deixe de ser uma promessa longínqua.

Han Yan e Channing Huang trabalham num território fértil, em que aventura espacial, ação e suspense psicológico se confundem. A nave, mais que cenário, funciona como metáfora de uma humanidade que foge da Terra levando consigo os mesmos vícios: a dependência da tecnologia, a covardia diante do sofrimento, a tentação de terceirizar até o inconsciente. Dylan Wang sustenta o eixo dramático com uma presença que oscila entre o heroísmo juvenil e a perplexidade de quem descobre tarde demais que não há botão de emergência para a alma. Victoria Song acrescenta alguma gravidade ao núcleo humano, impedindo que o filme vire apenas um mostruário de panes digitais, enquanto Duo Wang ajuda a dar corpo ao desespero de um grupo lançado contra inimigos que não estão fora da nave, mas entranhados no medo de cada um.