Exibido no mês passado na programação do 18º In-Edit Brasil, o documentário Flora & Airto – O Som Revolucionário, de Jom Tob Azulay, traz notícias acalentadoras sobre o casal musical formado desde os anos 1960 pelo catarinense Airto Moreira e pela carioca Flo…
Exibido no mês passado na programação do 18º In-Edit Brasil, o documentário Flora & Airto – O Som Revolucionário, de Jom Tob Azulay, traz notícias acalentadoras sobre o casal musical formado desde os anos 1960 pelo catarinense Airto Moreira e pela carioca Flora Purim. Depois de décadas de trabalho no ambiente jazzístico estadunidense (e mundial), eles voltaram a morar no Brasil a partir de 2019, anunciaram retirada dos palcos em 2022 e hoje, aos 84 anos de idade, vivem no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro.
Veterano diretor do antológico longa-metragem Os Doces Bárbaros (1977), que documentou em 1976 a turnê de encontro entre Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia, o carioca Azulay, atualmente também com 84 anos, parte para o simples e direto em O Som Revolucionário. De início, mostra cenas do casal em sua casinha no Retiro dos Artistas, num prenúncio de melancolia que será relativizado a seguir, graças à arte.
Airto dirige o som da cuíca, inclusive imitando na voz o instrumento brasileiríssimo. Se ele mantém o semblante grave a maior parte do tempo, o gestual de Flora traduz os não poucos momentos em que ela se mostra maravilhada diante dos sons que fluem das caixas acústicas. A música toma conta do espaço e do tempo, das alegrias e das tristezas. Os diálogos impagáveis entre Flora e Airto descortinam uma simbiose ensaiada ao longo de seis décadas de convívio.
– Oi, tá ouvindo tudo? – Airto pergunta.
– Eu tô ouvindo, você tá baixinho, mas não importa – responde Flora.
– É, não, mas eu tô falando alto.
– Não, mas você vai cantar só no coro, né? Ou vai cantar na música? Quer cantar um pedaço?
– Não, canta você. Você que é a cantora.
– Mas a música é sua, cara.
Feito mais de gestos, olhares, notas musicais, percussões vocais e suspiros que de palavras propriamente ditas, o documentário de Jom Tob Azulay passa macio e vai empilhando uma tonelada de histórias lancinantes sobre ontem, hoje e amanhã. Mais que um filme, é um poema audiovisual.
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