Ao CNN Sinais Vitais, psiquiatras explicam como a exposição contínua a notícias negativas pode desencadear ansiedade e afetar a saúde mental

Compartilhar matériaO cérebro humano possui um sistema de detecção de ameaças que foi algo extremamente importante para a sobrevivência da humanidade ao longo de sua evolução. A exposição constante e repetida a notícias negativas ao longo das últimas décadas, no entanto, vem transformando esse sistema em um fator de risco significativo para transtornos mentais.

É o que explicaram Camila Magalhães Silveira, psiquiatra do Hospital Sírio Libanês, e Guilherme Polanczyk, psiquiatra e professor da FMUSP, no programa CNN Sinais Vitais, apresentado por Dr. Roberto Kalil.

Segundo Polanczyk, "as situações percebidas como ameaças desencadeiam uma série de reações no cérebro e no corpo humano".

O problema, de acordo com o especialista, está na natureza contínua das más notícias na atualidade. Eventos muitas vezes únicos e circunscritos são repetidos incessantemente, transmitindo a ideia de que o mundo é permanentemente perigoso e ameaçador. "O nosso cérebro não distingue o que é uma ameaça real, presente no ambiente onde se está, do que é uma ameaça irreal", explicou Polanczyk.

"Essa exposição constante a conteúdos negativos representa, portanto, um fator de risco relevante para transtornos mentais em geral, com destaque para a ansiedade", afirmou o psiquiatra.

O impacto, contudo, varia conforme as características individuais de cada pessoa. "Adultos com uma visão positiva da vida ou com maior capacidade de contextualizar os eventos tendem a ser menos afetados, pois conseguem utilizar o raciocínio para regular suas emoções", argumentou Polanczyk.

Polanczyk ainda destacou que as crianças são especialmente suscetíveis aos efeitos das más notícias repetidas. "Diferentemente dos adultos, elas podem não compreender a dimensão real dos eventos e, dependendo da idade, imaginar que as situações retratadas estão acontecendo na porta de casa ou que podem afetar diretamente seus familiares", disse o especialista.

Como exemplo, Polanczyk mencionou o período da pandemia. Mesmo com as pessoas isoladas em suas residências, as taxas de ansiedade cresceram consideravelmente, e crianças acompanhavam diariamente a divulgação do número de óbitos no país.

"Essa é uma realidade que, sem dúvida, afeta diretamente o cérebro, principalmente daqueles mais sensíveis", concluiu.