Portugal viveu um jogo absolutamente louco e bateu a Croácia, para defrontar a Espanha nos oitavos de final do Mundial 2026. A Suíça segue.

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Ao contrário do que Rosalía cantou por três vezes na bancada, uma para cada golo, a solução para a Espanha foi não se “Despechá” em demasiado. Diante de uma Áustria que tem na pressão a maior força, a Roja conseguiu pôr-se em vantagem e, a partir daí, fazer o que de melhor faz. Chamou a bola para si, adormeceu o jogo e, quando sentiu que havia espaço, acelerou e matou o jogo. Por muito que surjam novos desequilíbrios, o “Mundo Nuevo” da Espanha passará sempre pela forma como trata a bola.

Desde que Lamine Yamal chegou à seleção, há sempre maneira de criar perigo. Foi o jogo onde até mais longe aguentou, o que é um ótimo sinal e indicador para as expectativas espanholas. Por mais que seja evidente que esteja num momento de recuperação de lesão, continua a ser fundamental na dinâmica espanhola para impedir que o adormecimento no jogo se torne obsoleto e esquecimento do objetivo de visar a baliza. Quando não há alternativa, a Espanha mete a bola em Lamine Yamal e sai de lá qualquer coisa. Quando há alternativa, envolve-se no jogo e funciona como mais um elemento, o mais criativo e envolvente. Também por aqui se ganham jogos.

No ataque, nem tem sido o nome mais chamativo. Desde que Mikel Oyarzabal desapareceu nas águas turbulentas de Cabo Verde, que tornou a estadia espanhola num tormento esquecendo todas as recomendações paradisíacas, que se impôs na frente de ataque. Somou mais dois golos à sua conta pessoal e, principalmente para o mundo exterior, passa a versão de goleador. Por mais que tenha crescido como extremo e começado por dentro como avançado de apoios, está cada vez mais ligado como jogador de ruturas e aproveitamento ao espaço. Tal como Lamine Yamal, tem um perfil diferente ao de nomes passados. É assim o “Mundo Nuevo” espanhol.

Na Espanha, há um padrão que se vai repetindo e permitindo golos. Sempre que o adormecer do jogo abre espaços para tal, a Roja acelera pelos corredores. Marc Cucurella, particularmente, faz um Mundial em crescendo, rompendo por fora ou por dentro para chegar à linha de fundo. Não sendo uma relação perfeita, sem Nico Williams (ou um extremo puro), Alex Baena é o parceiro mais funcional para o lateral. É mais agressivo nos movimentos, mantendo a capacidade técnica como base. Sempre que a bola chega a Cucurella, alguém se movimenta para atacar a zona do penálti. Por mais que os triângulos sejam bonitos e funcionem, não há padronização mais entusiasmante no jogo espanhol que esta. 

Em 360 minutos, a Espanha ainda não sofreu qualquer golo. A melhor defesa espanhola passa pela manutenção da bola e ainda não houve qualquer seleção capaz de colocar Unai Simón em apuros. É curioso como não há absolutamente nada a apontar à decisão mais questionável de Luis de la Fuente, que tem Joan García e David Raya no banco, embora o próprio guarda-redes não tenha feito nada por aí além. Rodri tem mais fragilidades que há dois anos e Pedri tem funcionado mais com lampejos que de forma assombrosa. Ainda assim, a Espanha está melhor e em crescendo. Desde 2010 que não vencia um jogo numa fase a eliminar do Mundial. E o enguiço foi, finalmente, quebrado.

À Áustria falta muito poder de fogo na frente. Depois da primeira pausa de hidratação, um verdadeiro time-out, a Espanha assumiu o jogo e ganhou vantagem, mas até lá a disputa estava animada. Mas, por mais que os austríacos se dividissem bem entre o momento de pressionar mais alto e de e salvaguardar mais atrás, nunca conseguiram criar perigo. Para lá de Christoph Baumgartner, o mais importante dos jogadores da seleção e que se lesionou mesmo antes do início do Mundial, falta velocidade na frente. A Áustria dos médios chega para o mínimo, mas quando é preciso dar o passo em frente, ficará sempre curta. 

Portugal, Portugal. Quanta da história lusitana não foi feita de superações épicas, quantos dos grandes feitos no futebol português não tiveram roteiros inacreditáveis. Ainda assim, todos parecem pequenos para um jogo com tantos acontecimentos, tanta história, tantas mudanças num guião que começou linear e que, de repente, se tornou numa sucessão quase aleatória de picos de tensão, de momentos icónicos, de decisões. Portugal venceu a Croácia num dos capítulos mais bonitos da história do futebol português. Não é jogo de título, mas é um daqueles encontros que vai figurar na memória coletiva por anos e anos. Então não se lembram de onde estavam quando, às 2 da manhã, Gonçalo Ramos decidiu ser mais alto que três croatas na área? 

Com a Croácia no seu casulo, o jogo passou a jogar-se em 30/40 metros. Por um lado, há muito mérito no jogo defensivo de Portugal, nomeadamente na pressão alta e capacidade para reter a bola na sua posse. Também Rúben Dias e Renato Veiga, num desafio facilitado pela ausência de velocidade dos avançados croatas, jogaram lá em cima, travando transições. Nem a Croácia conseguia sair rápido, nem tinha posses prolongadas para criar. Foi uma grande primeira parte de Portugal neste sentido, travada apenas pelo inevitável afunilar no jogo pelos corredores. Bruno Fernandes não esteve tão preso como na estreia, mas também não conseguiu ir além do papel como segundo avançado, num limbo entre ser opção para o passe e o fixar da linha defensiva.

A segunda parte surgiu como um baque para Portugal. Era difícil pedir uma entrada pior. A Croácia lançou Igor Matanovic, para ganhar outra variabilidade no seu jogo, e Mateo Kovacic e Petar Sucic assumiram a responsabilidade. Não serão muito mencionados, e é natural que assim o seja, tamanho o feito português, mas foram gigantes no jogo croata. Aproximaram a Croácia da área contrária, preencheram os espaços e inverteram a tendência. Os laterais croatas começaram a surgir para atacar o segundo poste e aproveitar as falhas no acompanhamento pelos extremos. Num destes lances, o senador Ivan Perisic marcou. 

Não demorou para, no duelo dos anciãos se agitar. Cristiano Ronaldo marcou um golo esteticamente de outro nível, na forma como recebe a bola colada ao pé e rapidamente a pica sobre Dominik Livakovic. A tecnologia do fora de jogo automático, que quis ser protagonista, decidiu aparecer. O inevitável só foi adiado. Renato Veiga, o principal alvo para bolas paradas, foi travado à margem das leis. Apareceu Cristiano Ronaldo, finalmente a quebrar o enguiço. Era quase inexplicável ainda não ter golos em jogos a eliminar do Mundial. 

De um momento para o outro, as quatro substituições de Roberto Martínez passaram a ser um problema. Tinham entrado, minutos antes, Nélson Semedo, Bernardo Silva, Francisco Conceição e Gonçalo Ramos para os lugares de João Cancelo, Vitinha, Bruno Fernandes e Pedro Neto. O empate passou a colidir com um meio-campo despido e a Croácia voltou a crescer. Tal como antes, apareceu Diogo Costa. Imperial entre os postes. Felizmente, ao contrário do que aconteceu com a Colômbia, desta vez não se vai falar de Diogo Costa. Mas esteve lá. Está a fazer um Mundial 2026 de peso.

Roberto Martínez arrastou o meio-campo a dois até ser insustentável. Quando percebeu que assim não dava, tirou Cristiano Ronaldo e meteu Rúben Neves. Era a única opção lógica, mas não deixa de ser necessário enaltecer a coragem, especialmente numa altura em que a gestão do português tantos anti-corpos tem criado. Já antes, na quádrupla substituição, foi ousado e proativo, antecipando o cenário que chegaria. Não há que ter reservas quanto ao papel de Cristiano Ronaldo. É evidente que é um jogador diferente de todos os outros e que, reduzi-lo a um mero mortal, é um erro. Também o é ignorar completamente o que o campo dita. E o campo ditava Rúben Neves.

Com o meio-campo sob controlo, Portugal voltou a ter bola e sequência no meio-campo ofensivo. No momento certo, apareceram Rafael Leão e Gonçalo Ramos. Leão não será muito falado, mas não há na memória muitos jogos pela seleção com este impacto. Foi o melhor português no arranque histórico, quando tudo corria mal não se inibiu de assumir e rematou à trave e, no fim, tornou-se no único português sem pernas frescas na frente. Nos descontos, descobriu um cruzamento para a área.

A bola não precisou de ser perfeita, porque o movimento e ação de Gonçalo Ramos conseguiu sê-lo. Impressionante a forma como, entre três torres croatas, conseguiu ganhar o lance. Mais impressionante ainda, a força que imprimiu no cabeceamento, numa altura em que já iniciava o movimento descendente. Aguentou ao máximo o tempo de salto e foi feliz. Já em 2022 tinha sido protagonista no Mundial e volta a sê-lo. Está a construir uma relação bonita com o Mundial. Foi recebido em euforia por todos os colegas, incluindo Cristiano Ronaldo. Estranho e preocupante seria se, quando saiu, com um empate no marcador, tivesse um sorriso na cara. Não há anticorpos ou problemas. 

Já antes o fora de jogo tinha salvo Portugal e, nos descontos, o roteiro perfeito chegou. Um fio de cabelo de Igor Matanovic tornou o fora de jogo interpretativo e a Croácia, que tinha conseguido marcar o golo do empate, viu tudo ruir. O resultado já estava definido e Luka Modric, ídolo maior de toda uma geração de croatas, mas também de portugueses, espanhóis e amantes do futebol, jogou mesmo o último jogo do Mundial. Agora, que venha a Espanha. Há uma final da Liga das Nações para repetir. 

Há, na vida, momentos de consistência e de risco, de experiência e de aventura, de maturidade e de jovialidade. No fundo, há momentos em que somos suíços e outros em que somos argelinos. Não havia choque mais extremo possível. De um lado, uma das seleções mais maduras do futebol internacional; do outro, uma das mais irreverentes e tresloucadas. E, o 2-0 com que a Suíça facilmente venceu a Argélia é o retrato perfeito desta dualidade.

A Argélia é uma das atrações do futebol internacional pela capacidade de juntar perfis criativos e combinativos, por ter capacidade para se impôr no meio-campo contrário e por, se não oferecer o resultado, oferecer entretenimento. Além das dificuldades em transição e na ocupação de espaços defensivos, os argelinos têm pouco poder de fogo para resolver jogo na área contrária. Por mais que seja uma equipa capaz de se implementar no meio-campo adversário, terá sempre pouco volume ofensivo. Ainda não o ganhou contra a idade.

Tremendamente eficaz a forma como a seleção helvética, mesmo em inferioridade, pouco se deixou abalar. Mais facilmente se sente desconfortável em cenários incertos, como aquele que abraçou na estreia no Mundial diante do Catar, do que em contextos de aparente fragilidade. Tem termómetros de regularidade no meio-campo, como Granit Xhaka e Remo Freuler, e referências claras em Manuel Akanji ou Ricardo Rodríguez. Entre toda esta consistência, foi abraçada por Johan Manzambi.

A Suíça é aquele avô que redescobriu a juventude com o neto que só faz traquinas. Com Manzambi, a Suíça atira para o lado o passado como bancária de sucesso, com uma carreira ascendente e um emprego estável das 9 às 17h, e abraça repentinamente um estilo de vida baseado em comprar gomas a meio da tarde e quebrar todas as normas impostas pelos pais da criança. Johan Manzambi dá vida à Suíça na forma como se projeta com ou sem bola e como joga com a mira apontada à baliza adversária. Em quatro jogos, dois como titular, leva cinco contribuições diretas para golo. Não é coisa pouca.