Ao se encontrar com Liev Tolstói e Anton Tchékhov pela primeira vez, Máximo Gorki tinha 31 anos. O decano da trinca era o autor de "Guerra e Paz", com 71; o de "Tio Vânia" estava com 40. Eram os escritores russos mais lidos e admirados na época, a virada do século 19 para o 20. Leia mais (06/26/2026 - 16h30)
Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto"
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26.jun.2026 às 16h30
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Ao se encontrar com Liev Tolstói e Anton Tchékhov pela primeira vez, Máximo Gorki tinha 31 anos. O decano da trinca era o autor de "Guerra e Paz", com 71; o de "Tio Vânia" estava com 40. Eram os escritores russos mais lidos e admirados na época, a virada do século 19 para o 20.
A literatura russa vinha de sair do nada direto para o cânone europeu, que, com a "Odisseia", remonta ao século 8º a.C. Na esteira de seu patriarca, Púchkin, morto em 1837, vieram Dostoiévski, Gógol, Turguêniev e, agora, os três grandes que papeavam na Crimeia.
Tal erupção de alta literatura não tem paralelo. Só nas artes plásticas da Itália, na segunda metade do século 15, houve um vulcão análogo: o surgimento da pintura de Leonardo, Michelangelo e Rafael.
Há quase um século, Virginia Woolf e o marido, Leonard, publicaram na sua editora, a Hogarth Press, "Reminiscences of Tolstoy, Chekhov and Andreyev", de Gorki. Com o título "Três Russos: E como Me Tornei um Escritor", foi publicado no Brasil há 20 anos pela Martins Fontes.
Leonard Woolf disse que é "um dos textos biográficos mais notáveis já escritos" e faz que se "ouça, veja e sinta Tolstói como se ele estivesse na mesma sala; sua grandeza e pequenez, sua complexidade exasperante e fascinante, sua personalidade titânica e poética, seu humor soberbo".
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Há décadas fora do prelo, "Reminiscences" foi retraduzido e republicado há meses na Inglaterra. Ganhou aplausos ainda mais ruidosos, e merecidos, porque ganhou um bonito prefácio de J.M. Coetzee, o Nobel sul-africano. Ele não esclarece o porquê da repentina emergência da ficção russa, mas situa sua evolução.
A figura mais espantosa do livro é Gorki, cuja reputação de escritor menor e homem execrável está fundamente enraizada. Nascido Alexei Peskov, pobre e órfão, foi tirado da escola pelo avô aos dez anos para ser sapateiro e, depois, lavador de pratos num barco a vapor.
Cruzou a Rússia de fio a pavio, viveu de bicos, tentou se suicidar aos 19 anos, foi preso pelo czarismo, ficou amigo de Lênin, exilou-se, aprendeu a escrever sozinho, adotou o pseudônimo de Máximo Gorki —máximo amargo— e trouxe um timbre popular à literatura. Best-seller na Rússia e na Europa, ficou rico.
Ao conhecê-lo, Tolstói registrou no seu diário: "Gorki esteve aqui. Uma conversa ótima. Gostei dele. Um verdadeiro homem do povo". E Gorki escreveu a Tchékhov: "Tudo o que ele disse era surpreendentemente simples, profundo e, apesar de às vezes totalmente falso, muitíssimo bom. Você olha para ele e é muito agradável sentir que também é um homem, pois percebe que é possível a um homem ser um Liev Tolstói."

