Polícia Civil cumpre 19 mandados de prisão contra grupo criminoso que utilizava inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz para criar vaquinhas falsas; 11 suspeitos já foram presos
Uma megaoperação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, deflagrada nesta terça-feira (14), mira uma sofisticada organização criminosa especializada em estelionato digital. O grupo utilizava o drama real de Sophia, uma menina gaúcha de três anos moradora de Campo Bom que luta contra o câncer infantil, para criar campanhas falsas de arrecadação de fundos na internet.
Batizada de Operação Sophia, a ação cumpre 19 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em cinco estados da federação: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Até o momento, 11 suspeitos foram capturados. A ofensiva é coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, vinculada ao Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos.
A rota do dinheiro e o alvo no RS
No Rio Grande do Sul, as ordens judiciais de busca e prisão foram concentradas no município de Passo Fundo, no Norte do estado. O alvo local é apontado como peça-chave do núcleo financeiro da quadrilha.
Conta de passagem: O investigado em Passo Fundo teria aberto uma conta em uma intermediadora de pagamentos utilizando o nome de sua própria empresa.
Arrecadação via Pix: Essa conta recebia diretamente os valores transferidos por doadores de boa-fé através de QR Codes e Pix gerados nos anúncios falsos.
Desvio: Apenas nessa conta, foram rastreados R$ 31,7 mil vinculados à imagem de Sophia. Logo após o recebimento, o dinheiro era pulverizado para contas de outros integrantes do grupo.
"A suspeita é de que ele tenha cedido conscientemente sua identidade e sua estrutura empresarial para permitir o recebimento dos valores das vítimas, proteger os demais integrantes e permitir a posterior distribuição e ocultação do dinheiro obtido com as falsas doações", detalhou o delegado João Vitor Heredia, coordenador da operação.
Tecnologia a serviço do crime: IA, deepfakes e clonagem de voz
A investigação revelou que o grupo operava com uma estrutura altamente profissional e divisão rigorosa de tarefas. Longe de ser um golpe amador, a quadrilha utilizava tecnologia de ponta para ludibriar os doadores:
Manipulação audiovisual: Foram identificadas ferramentas avançadas para clonagem de voz, sincronização labial (lip sync) e criação de avatares digitais por meio de inteligência artificial e deepfakes.
Páginas camufladas: Os criminosos utilizavam mecanismos de camuflagem de sites, remoção de metadados das mídias originais e registro de domínios em provedores estrangeiros para dificultar o rastreamento policial.
Paralelamente ao golpe em andamento, os policiais encontraram provas de que o bando fazia buscas ativas na internet por novas crianças com doenças graves em situação de extrema vulnerabilidade para servirem de "tema" para os próximos estelionatos.
Como o golpe foi descoberto e os valores movimentados
O caso começou a ser desvendado após a mãe de Sophia notar que imagens e vídeos da rotina médica da filha — originalmente publicados na única conta oficial mantida pela família no Instagram para relatar o tratamento — estavam circulando em anúncios pagos nas redes sociais com chaves Pix de terceiros. Nenhum valor doado por esses links alternativos jamais chegou à família de Campo Bom.
A investigação financeira da Polícia Civil revelou o tamanho do esquema:
R$ 294,5 mil foram diretamente rastreados e vinculados especificamente à falsa campanha usando a imagem de Sophia.
Mais de R$ 1,7 milhão foi movimentado no período sob investigação por uma das empresas de fachada mapeadas, considerada o verdadeiro hub financeiro do grupo criminoso.
Os mandados de busca e apreensão realizados nesta terça-feira buscam recolher celulares, computadores, mídias digitais, cartões bancários e contratos sociais nos endereços dos investigados para robustecer o inquérito e identificar novos receptores e cúmplices da fraude.
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