Trump jamais compreenderia a poesia em 'corintiano, maloqueiro, sofredor: graças a Deus'
Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"
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20.jun.2026 às 16h45 Atualizado: 20.jun.2026 às 17h16
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"Warum mit den Füßen?" Não falo alemão, mas meu querido cunhado, Pedro Bial, fala ou pelo menos lê —e foi ele quem me contou da chamada, na primeira página do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, numa edição de julho de 2006, durante a Copa: "Por que com os pés?". A resposta, num ensaio muito erudito (como se espera de um diário germânico), era simples e bela: porque é mais difícil.
No livro "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil", José Miguel Wisnik, filósofo, poeta, "uspianista" e boleiro de mão (pé) cheia (o), também dá suas pedaladas diante da questão podal. Diz que por ser jogado pelos pobres habitantes do sul corporal, não pelos primos ricos do hemisfério Norte, como o vôlei ou o basquete, o futebol tem um ingrediente a mais de surpresa. Pisa sempre sobre o imponderável. Um mínimo descuido e é gol contra, é bunda na grama ou bola pra arquibancada. Nisso que dá meter, literalmente, os pés pelas mãos. (Já pode ter acontecido, mas nunca vi, no basquete, uma "cesta contra".)
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Antes do apito inicial, portanto, o jogador de futebol já está, senão fadado ao fracasso, pelo menos embicado em sua direção. O boleiro, "underdog" de si mesmo, joga não só contra dez adversários, mas contra 3 bilhões de anos de seleção natural. Taí parte da beleza do ludopédio, apontada pelo jornal alemão—e é exatamente essa beleza, acredito, que os americanos são incapazes de enxergar.
Por que, ó céus, dedicar-se a um esporte tão canhestro? Eis o que perguntariam aos céus os americanos, caso questionassem os deuses, mas não o fazem. O Deus protestante, espírito do capitalismo, fala através das vitórias e derrotas dos mortais. Os "winners" são os escolhidos, os "losers", condenados. Melhor, então, apostar na eficiência destra da bola ao cesto, onde as estatísticas, a meritocracia, o plano e a razão sempre vencem o acaso.
Os heróis de Hollywood, apesar de todas as dificuldades, contra tudo e contra todos, quase sempre chegam num happy end. Futebol tem muito mais proximidade com a tragédia grega. O herói condenado desde o início tentando contradizer a predição divina, embalde. Donald Trump jamais compreenderia a poesia em "corintiano, maloqueiro, sofredor: graças a Deus". Sófocles, talvez, sorrisse em seu túmulo. (Édipo, muito convenientemente para este texto, significa em grego "o de pé inchado".)
A revista New Yorker, numa matéria de 13 de junho, especula se, começada a Copa, os EUA finalmente se dobrariam aos encantos do "soccer". Duvido. Perguntaram a mesma coisa em 1994 e eles ainda não sabem a diferença entre lateral e impedimento.
Sinto, diante dessa cegueira emocional estadunidense para a grandeza do futebol, um gostinho de vingança. Vingança de ressentido, de colonizado. Como se eles fossem os senhores feudais ricos e infelizes, incapazes de ouvir a música, os risos e de sentir os cheiros que vêm lá da taverna do vilarejo.
Trump, imperador alma sebosa, olha pros países ao seu redor como Epstein olhava as meninas, babando e dizendo "come to daddy". Mal sabe que o mundo todo enxerga com asco esse "papai" e que o maior herói da Terra, na última semana, atende pelo singelo apelido de Vozinha. Um futebolist



