Brasil avançou em políticas de redução de riscos com planos nacionais e ações intersetoriais
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22.jun.2026 às 22h00
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Cilene Victor Professora titular dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e professora do FGV LAW; cofundadora da Global South Perspectives Network
Na madrugada de sábado (20), milhões de brasileiros receberam em seus celulares uma mensagem de alerta extremo contendo a palavra "misantropia". A escolha da palavra não parece irrelevante. O significado de "aversão à humanidade" confere ao episódio uma dimensão simbólica, algo além do que as próprias investigações técnicas poderão revelar.
É legítimo questionar responsabilidades, vulnerabilidades tecnológicas e protocolos de segurança, mas permanece uma pergunta central: o que exatamente se pretendia –e o que se conseguiu atingir?
Esse caso produziu dois efeitos imediatos, o susto provocado pelo alerta e a percepção do risco de apagamento de décadas de articulações interinstitucionais voltadas à gestão de riscos de desastres. Afirmar que esse episódio pode romper a confiança da população na plataforma Defesa Civil Alerta exige cautela.
Comunicação de riscos requer relação de confiança e credibilidade, que só se constrói ao longo do tempo e envolve diversos setores da sociedade, não só governos. Do mesmo modo, a deslegitimação dessa estrutura não se dissolve em uma madrugada, não resulta de uma ação isolada, mas de um projeto.
No passado, alertas antecipados ainda eram vistos por alguns especialistas como potenciais geradores de pânico. A experiência e as pesquisas demonstraram o contrário: a ausência de informação e o silêncio institucional tendem a ampliar vulnerabilidades.
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Nos últimos anos, o Brasil avançou em políticas de redução de riscos e adaptação climática. Os planos nacionais de proteção e Defesa Civil e de mudança do clima, as ações da Secretaria Nacional de Periferias voltadas aos territórios periféricos e a atuação da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos na elaboração de um plano de contingência para situações de desastres, com atenção aos direitos humanos, são exemplos de uma agenda intersetorial que tem mobilizado governos locais, universidades e centros de pesquisa, organismos internacionais, organizações da sociedade civil, núcleos comunitários e lideranças territoriais.
Para quem chega agora a esse campo, pode parecer algo recente. Não é. Dos desastres em Santa Catarina (2008), Pernambuco e Paraíba (2010) e na região serrana do Rio de Janeiro (2011) às ocorrências mais recentes em São Sebastião, Rio Grande do Sul e na Zona da Mata Mineira, permanecem evidentes os desafios e fragilidades brasileiras em prevenção, preparação e resposta. Essas ocorrências demonstram também algo menos visível: sem os esforços construídos diariamente nas defesas civis, nas universidades e nas comunidades, o cenário seria muito mais grave.
Quando chega um alerta ao celular, o que se comunica não é apenas uma informação sobre um risco. Comunica-se que existem técnicos, cientistas e profissionais monitorando ameaças em órgãos como o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e o Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres).
Comunica-se que alguém está olhando para aquela comunidade, para aquele território. Essa estrutura existe precisamente para proteger pessoas, sobretudo as populações que historicamente sofrem de forma desproporcional os impactos dos eventos extremos, como crianças, mulheres, pessoas negras, pessoas idosas, pessoas com deficiência, indígenas, quilombolas e populações periféricas.
Se o objetivo do ataque era atingir a credibilidade de um instrumento de proteção e defesa civil e ferir a integridade da comunicação pública dos riscos, a resposta social não pode reproduzir exatamente esse efeito.
Ao mesmo tempo que o país se prepara para enfrentar os impactos do El Niño e uma realidade climática cada vez mais severa e desigual, observa-se um ambiente de crescente deslegitimação das instituições políticas, científicas, sociais e democráticas.




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