Captação em yuan vale menos pelo dinheiro que levantará do que pelo precedente que cria para a relação entre os países

Jornalista, mestre em Estudos da China pela Academia Yenching (Universidade de Pequim) e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua

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26.jun.2026 às 23h00

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou na quinta-feira (25) a carta de intenção que abre caminho para o Brasil emitir títulos soberanos em yuan, os chamados panda bonds. O presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, recebeu o documento em Pequim. O país é o primeiro da América Latina a acessar o mercado interbancário chinês e pretende captar até 5 bilhões de yuans, ou US$ 735 milhões, nos próximos dois a três meses.

Panda bonds são papéis de dívida que governos e empresas estrangeiras emitem dentro da China, em moeda local. Diferem dos dim sum bonds, emitidos fora do continente e sobretudo em Hong Kong, porque acessam diretamente a poupança doméstica chinesa. Essa reserva é a segunda maior do mundo e supera 200 trilhões de yuans. Quem compra são bancos estatais, seguradoras e fundos de pensão chineses que preferem prazos curtos e risco baixo.

Para Pequim, o instrumento cumpre função que vai além da captação. Ao financiar terceiros na própria moeda, a China avança na internacionalização do renminbi e cria circuitos de crédito que dispensam o sistema bancário ocidental e escapam de sanções como as que congelaram reservas russas em 2022. Rússia, Hungria, Paquistão e o emirado de Sharjah já recorreram ao mercado pela mesma lógica.

Há ainda uma dimensão jurídica pouco notada. Os prospectos desses títulos costumam submeter disputas a leis e cortes chinesas, não aos tribunais de Nova York ou Londres que regem a dívida soberana global.

O cálculo brasileiro é mais imediato e começa pelo custo. Emissões recentes de panda bonds saíram entre 1,7% e 2,05% ao ano, enquanto o Tesouro pagou em 2025 cerca de 5,2% em papéis de cinco anos em dólar e 7,5% nos de 30 anos. A diferença chega perto da metade e pesa num momento em que a Selic está em 14,25% e o prêmio de risco doméstico segue alto.

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O yuan entra como terceira moeda na carteira da dívida e oscila menos que outras emergentes, o que reduz a concentração em dólar e euro. O Plano Anual de Financiamento já previa essa diversificação, e a primeira operação fora do dólar captou € 5 bilhões em abril.

O ganho que o governo mais valoriza é geopolítico. A operação se conecta ao Eco Invest Brasil, programa que já mobilizou mais de R$ 140 bilhões para projetos sustentáveis e prevê R$ 63 bilhões em captação externa.

Durigan discutiu com Pan uma versão verde do papel, que pagaria juros ainda menores e financiaria setores como bioinsumos. O Brasil entra no mercado chinês pela porta que Pequim mais quer abrir, a do financiamento à transição climática no Sul Global.

Convém medir a escala antes de tratar a estreia como ruptura. Os US$ 735 milhões são fração modesta da dívida externa, e o risco cambial recai sobre o Tesouro se o real recuar frente ao yuan. O peso da estreia está menos no volume do que no precedente que ela cria.

Ao se tornar o primeiro soberano latino-americano a captar dentro da China, o Brasil referencia preço para empresas privadas que vierem atrás e assina sua leitura de um sistema financeiro sem centro único. A aposta é que diversificar credores, moedas e jurisdições amplie a margem de manobra de um país historicamente exposto aos humores de Washington. O teste virá quando os juros atraentes de hoje encontrarem a volatilidade do câmbio.