Abraham Heschel vê no shabat pausa contra produtividade

Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP

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30.ago.2026 às 23h00

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É possível ainda percebermos o espanto como um modo de relação com o mundo?

Sócrates, no Teeteto, diálogo escrito por Platão, afirma "pois, esta é a paixão do filósofo: o espanto". "Não há outra origem da filosofia senão esta." A palavra para espanto é "thaumazein". Nela, ainda podemos entender "admiração profunda" ou algo similar. Repito: ainda é possível sentirmos tal espanto diante do mundo? A resposta deve ser cuidadosa. Temo que não —por razões históricas, econômicas, sociais, políticas e técnicas, além do surgimento da ciência moderna.

Ao falar em espanto ou admiração profunda não devemos pensar em coisas como "sinto espanto diante da política miserável do Brasil" ou "tenho uma admiração profunda pela obra de Dostoiévski".

Esse espanto do qual fala Sócrates é uma experiência estética radical —no sentido da sensação profunda que nos acomete diante do que não conhecemos, do infinito do universo, do puro mistério do Ser a nossa volta— que estabelece todo um modo de pensar. Dito de outra forma: o espanto socrático determina a cognição do mundo, ou seja, o modo como conhecemos o mundo, a forma como nos movemos nele e o sentido que atribuímos a ele. Esse espanto é o oposto da banalidade do cotidiano.

Hoje, talvez, só um astronauta vendo a Terra de fora, pequenina, mas tão essencial para nós, contra o universo escuro, indiferente e misterioso, pode nos aproximar do que diz o filósofo grego. Estamos aqui, perto do conceito de sublime definido por Kant, que é a nossa capacidade moral de compreender o infinito diante de poderes e grandezas que nos esmagam, mas que podemos, em nossa insignificância —talvez por causa dela— contemplá-las por causa de seu significado infinito, poderoso e misterioso.

De novo: ainda somos capazes hoje, sem sair do planeta e ir para o espaço, de ter essa experiência do espanto? Temo que não. A razão dessa impossibilidade é o fato de o mundo estar desencantado, segundo o sociólogo Weber.

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O que seria esse desencantamento? O encanto aqui, em oposição ao desencantamento, teria algo a ver com a experiência religiosa? Por que o desencantamento implicaria a impossibilidade do espanto do qual fala a filosofia?

Aprofundemos essa questão. Vejamos outro filósofo, esse contemporâneo, que também constrói toda uma filosofia a partir da ideia de espanto, admiração, maravilhamento. Refiro-me ao filósofo judeu do século 20, Abraham Joshua Heschel. Logo sairá uma nova edição do seu clássico "Deus em Busca do Homem", em nova tradução feita por Andrea Kogan, pela Companhia das Letras.

Heschel chega mesmo a propor uma pedagogia de admiração e maravilhamento com o mundo. Por exemplo, o lugar do shabat —o sábado sagrado que começa na sexta com a primeira estrela— no judaísmo, como dia em que não se trabalha e nos dedicamos a Deus, indo à sinagoga, estando com a família, é um momento em que o tempo se abre a uma dimensão não centrada na labuta, no cálculo do sucesso.