Pensamento mítico organiza imagens que ajudam a refletir sobre justiça, conflito e diferença entre o verdadeiro e o falso

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Marcelo Tápia Doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP, é poeta e tradutor, autor de "Refusões – Poesia 2017-1982" (Perspectiva, 2017) e "Ascensões e Descensos" (Madamu, 2025).

[RESUMO] O autor argumenta que a tragédia grega não é apenas um legado literário, mas uma forma de pensamento capaz de iluminar o presente. A coletânea de Eurípides, afirma, vem suprir a ausência de um projeto autoral sistemático de tradução do teatro trágico no Brasil, com unidade de tratamento poético e rigor conceitual.

O que a tragédia grega pode oferecer, hoje, de relevante para nossa visão de mundo? A ocasião de lançamento do quinto e penúltimo volume do teatro completo de Eurípides em tradução de Jaa Torrano —contendo as obras "Helena", "As Fenícias" e "Orestes"— fornece um forte estímulo para a busca de possíveis respostas a tal pergunta. Sobre o teatro grego, convém mencionar de início que, das centenas de tragédias apresentadas nos concursos iniciados por volta de 534 a.C. em Atenas, chegaram até nós apenas 32, sendo sete de Ésquilo (525-456 a.C.), sete de Sófocles (496-406 a.C.) e 18 de Eurípides (480-406 a.C.).

A coletânea das peças de Eurípides coroa a iniciativa do tradutor, poeta e professor de grego da USP de traduzir todas as tragédias sobreviventes. No Brasil, há diversas traduções das tragédias, geralmente publicadas de modo esparso. Contudo, pode-se dizer que nos faltava um projeto autoral sistemático voltado à totalidade do teatro trágico, dotado de unidade no tratamento poético —caracterizado por dicção elevada e ritmada—, firmemente calcado na estrutura do original grego e orientado conceitualmente, encarando-se a tragédia como literatura e também como forma de pensamento.

Tratando-se de Eurípides, diz o professor Jaime Bruna (1911-2002), em seu livro "Teatro Grego", que o autor "submete o pensamento antigo a dúvidas sutis, críticas mordazes", trazendo para o teatro as discussões que se davam na cidade; para ele, Eurípides soube "pintar as paixões humanas, a mesquinhez, o egoísmo, o ódio, a covardia, a falsidade", bem como "a afeição, a bravura, a lhaneza". Se as peças do dramaturgo forneciam elementos para a crítica da sociedade da época e da própria natureza humana, também se pode vislumbrar que, apesar da imensa distância temporal e cultural, elas possam oferecer alargamento e aprofundamento ao ponto de vista contemporâneo acerca de nós mesmos.

Qual é o papel da tragédia na sociedade grega de então, que manteve os concursos realizados durante as Grandes Dionísias (festival cultural e religioso dedicado ao deus Dioniso) até o fim do século 2 a.C.? Para o historiador francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007), em estudo do livro "Mito e Tragédia na Grécia Antiga (vol. 1)", "a tragédia não é apenas uma forma de arte, é uma instituição social que, pela fundação dos concursos trágicos, a cidade coloca ao lado de seus órgãos políticos e judiciários". A tragédia, diz Vernant, era "um espetáculo aberto a todos os cidadãos" que se dava no "mesmo espaço urbano e segundo as mesmas normas institucionais" das assembleias ou tribunais; "enraizada na realidade social", mais que refletir a sociedade, a tragédia a questionava.

Em ensaio de seu livro "Mito e Imagens Míticas", Jaa Torrano observa que "a tragédia é o grande momento da educação pública em que a cidade atualiza a tradição e apresenta atualizados os seus valores e as suas referências aos cidadãos"; ela "não oferece modelos de conduta, mas mostra conflitos, contradições, erros de avaliação e obstinações fatídicas, que estimulam a reflexão e põem em questão os paradigmas tradicionais". Se os dramas, ao sobreporem épocas e práticas sociais, ressaltavam "a inadequação de certas atitudes aristocráticas" como "a soberbia (‘hýbris’), a ousadia (‘tólma’) e a obstinação (‘authadía’)", eles também conferiam aos valores tradicionais "um novo sentido e novas ressonâncias, eminentemente democráticas —como a moderação (‘sophrosýne’) e a prudência (‘phrónesis’)". Por falar em democracia, é interessante registrar que, nos concursos trágicos, os poetas autores das peças —cada um apresentava uma tetralogia— eram julgados por dez juízes, mas cinco dos dez votos eram sorteados para serem destruídos, podendo-se evitar, assim, o suborno do júri. Como assinala Torrano, "o sorteio era uma instituição típica da democracia ateniense: os cidadãos sendo todos iguais perante a lei, muitos cargos eram preenchidos por sorteio".

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Embora as peças trágicas discutissem os valores coletivos da cidade-estado (a "pólis"), elas estavam vinculadas à tradição mítica do mundo grego. Por isso, para podermos lê-las de maneira proveitosa, é preciso saber que o "pensamento mítico" se caracteriza pelo uso de imagens: nesse modo de pensamento, como esclarece Torrano, "não existe o conceito, tudo é imediatamente dado através de imagens". Mas, sendo a imagem objeto da percepção sensorial, limitada ao particular, como se poderia pensar o universal? Para o tradutor, isso se daria pela noção mítica de "Theós", "Deus(es)", que seriam "as imagens com que se pensa o mundo, que nos remetem aos aspectos permanentes, fundamentais do mundo".

Nesse sentido, diz-nos Torrano, "o que decide o destino de um homem é a sua atitude perante o Deus, como para nós hoje o que decide o nosso destino é a sua atitude perante o mundo". Nas peças de Eurípides, em que há uma dinâmica de diferentes pontos de vista, "os antagonistas ou proclamam a justiça de seus atos, ou reclamam justiça em reparação ao que sofreram". A noção de justiça nas tragédias do autor, associada à deusa "Díke", "Justiça", filha de Zeus (rei dos deuses), também se associa a valores cívicos e às instituições políticas; o tradutor comenta que "sob o aspecto da justiça, a tragédia grega é otimista, pois a justiça inelutavelmente se distribui a todos".

Além de podermos tomar da tragédia o ensinamento da necessidade de atualização crítica dos valores e da realidade social, da expressão da democracia e da educação estatal baseada na poesia, será útil considerar aspectos de sua composição que ilustram o gosto pelo debate, pela polifonia em que se apresentam os pontos de vista diversos. Assim, nos diálogos trágicos, encontra-se o "agón", sequência em que vozes diversas contrapõem suas perspectivas, dispondo para isso, comumente, do mesmo número de versos —com oportunidades iguais, portanto.

Numa época como a nossa, em que a contraposição de opiniões se faz antes pela paixão do que pela razão —pense-se na polarização que vivemos, que tolhe implacavelmente o debate de ideias— pode ser iluminador observarmos o procedimento dos diálogos equilibrados. "As cenas de ‘agón’", observa Torrano, "terminam sempre indecisas, sem que um persuada o outro"; o escopo de tais cenas "é a exposição da diversidade de opiniões e a determinação de diferenças".

Um fragmento de fala do Arauto (mensageiro) da peça "As Suplicantes", contida no terceiro volume do teatro de Eurípides, ilustra bem a natureza do "agón": "[...] Nesse assunto em debate, tua opinião é essa, a minha é contrária". Do volume recente, tomemos a cena do "agón" de "As Fenícias", que se dá quando Polinices, um dos dois filhos que Jocasta teve com o próprio filho, Édipo, dialoga com seu irmão Etéocles em sua reivindicação por justiça, uma vez que se considera banido injustamente de sua pátria, Tebas.