País tem 28 maratonistas no Top 200 em 2026, e o Brasil, nenhum
Paulo Vieira, do Jornalistas que Correm, fala tudo sobre corrida –mesmo aquilo que você não deveria saber
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27.jun.2026 às 10h58
Ainda que as feras do Ancelotti tenham demorado a mostrar suas garras, o Brasil chega a seu primeiro mata-mata na Copa como favorito —ao menos para as bets. Oito casas consultadas pagavam na manhã desta sexta (26) de 1,65 a 1,78 a cada real apostado na vitória da seleção. O "odd" para o triunfo do Japão era bem mais sedutor: de 4,6 a 5,25.
Mas até o Brasil alquebrado de Zagallo de 1974, talvez o pior escrete de todos os tempos no arranque de uma Copa, fosse favorito contra o melhor Japão histórico. E, batamos todos na madeira, se perdermos nossa hegemonia até nesse campo simbólico, o que nos sobra?
A eterna potência ambiental que não titubeia em perfurar poços de petróleo?
No atletismo masculino, ao menos na longa distância, a situação é muito diferente.
Há 28 maratonistas japoneses no Top 200, e 81 no Top 500 da liga mundial de 2026. O melhor é Suguru Osako, que cravou 2:05:59 na maratona de Tóquio, abaixo de seu recorde da distância, 2:04:55, em Valência, pouco menos de três meses antes, em dezembro. O melhor maratonista brasileiro de 2026, Johnatas de Oliveira, é apenas o 541º da distância, com seu 2:12:10 em Sevilha, em fevereiro.
(Apenas vírgula, pois Johnatas, como já foi dito nesta coluna, começou no cascalho dividindo seu tempo de treino com o do ganha-pão, como coletor de lixo em São Paulo. Seu recorde da maratona é 2:10:43 em Hamburgo, em 2023.)
Na maratona, o Brasil teve pontos altíssimos na virada do século 20 para o 21, primeiro com Ronaldo da Costa, que bateu em 1998, em Berlim, com seu 2:06:05, o recorde da distância, que já durava dez anos (sem contar a pirueta na linha de chegada); e em 2004, nos Jogos Olímpicos de Atenas, quando Vanderlei Cordeiro levou o bronze mesmo sendo puxado para a calçada pelo padre irlandês de araque.
O ápice, é bem verdade, veio recentemente, em 2022, com a promessa não cumprida Daniel do Nascimento, o Danielzinho, que bateu em Seul o recorde histórico brasileiro dos 42,2 km com 2:04:51. Aí, enfim, o Brasil supera o Japão: o melhor tempo japonês para a competição é aquele 2:04:55 de Osako, em Valência.
O treinador Wanderlei Oliveira, o WO, amigo perpétuo desta coluna e um pioneiro da corrida no Brasil, diz que a escola japonesa se baseia na disciplina, no companheirismo e, principalmente, nos grandes volumes de treino. "Eles seguem treinando muitos quilômetros, pouco praticam intervalados e correm várias maratonas por ano, o que não é comum em outros países. É uma tradição que vem da época em que os japoneses corriam longas distâncias para entregar cartas e que culminou no ‘ekiden’, a corrida de revezamento."
A corrida parece estar mesmo introjetada na vida japonesa. O maratonista Yuki Kawauchi assombrou o petit monde da modalidade ao vencer a veneranda mara de Boston, em 2018, sob chuva e vento pesados, com o tempo de 2:15:58. O detalhe é que Kawauchi exerce diariamente uma profissão, a de administrador de uma escola, o que o torna, pode-se dizer, um atleta amador.
Isso não impediu que o "corredor cidadão", como passou a ser conhecido, colecionasse recordes. Em 2023, tornou-se o primeiro homem a completar cem maratonas com tempo abaixo de 2:20. Seu recorde pessoal para os 42,2 km é o de 2021, 2:07:27, na mara de Lake Biwa, no Japão. Em 2026, cravou 2:14:30 em Osaka.




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