Soluções baseadas na natureza integradas a estruturas urbanas são até sete vezes mais baratas

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28.jun.2026 às 22h00

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Paulo Artaxo Físico, coordenador do CEAS (Centro de Estudos da Amazônia Sustentável-USP), autor-líder do IPCC - prêmio Nobel de 2007

Engenheiro florestal e superintendente da FAS (Fundação Amazônia Sustentável); doutor em Harvard, nos EUA

Urbanista climático, presidente do Nave (Novo Acordo Verde), coordenador do Harvard Brazil Climate Urban Resilience Groupe, mestre em políticas públicas (Universidade Harvard)

O El Niño chega assustando os brasileiros. A imprudência das lideranças mundiais e do lobby dos combustíveis fósseis nos colocou numa trajetória de aumento médio da temperatura do ar de 2,8 °C em relação aos níveis da era pré-industrial de 1850 –muito além do limite de 1,5 °C estabelecido no Acordo de Paris em 2015. A temperatura dos oceanos sobe também, intensificando os impactos e a possibilidade de um super El Niño com 2°C ou mais acima da média no Pacífico gerando eventos extremos de secas no Norte e Nordeste, ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste e chuvas no Sul.

Este aquecimento causa extrema volatilidade hidroclimática aumentando a intensidade e frequência de eventos climáticos extremos. De 1970 a 1980, anualmente, ocorreram em torno de cem por todo o mundo; de 2020 a 2025, cerca de 400. No Brasil, entre 2020-23 tivemos um aumento de 223% comparado à toda década de 1990.

Para proteger nossa população, ecossistemas e economia e alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, não podemos mais realizar apenas a recuperação ambiental e a transição energética. É preciso acabar com o desmatamento e a exploração e o uso do petróleo, que além de ferver o planeta é mais caro do que as energias renováveis, e, ao mesmo tempo, trabalhar intensamente a nossa adaptação e resiliência ao novo clima como única direção possível.

Somos vulneráveis devido à nossa posição tropical, com áreas em que variações na disponibilidade de água trazem enormes prejuízos ao abastecimento urbano, industrial, hidroeletricidade e agropecuária. Nas cidades, onde vivem 87% da nossa população, a crise climática chegou de vez. De 2015 a 2024, 84% delas foram atingidas por eventos extremos com a sucessiva alternância de enchentes, tempestades, secas e ondas de calor, a chicotada climática.

Um caso simbólico é o das cidades da Amazônia, onde vivem 78,5% de sua população. No último El Niño, em 2024, sistemas de água e saneamento ficaram avariados e comunidades isoladas com a seca dos rios. A logística hidroviária ruiu, impedindo a chegada de alimentos, remédios e água potável, impactando 770 mil pessoas e causando R$ 3,2 bi de prejuízos apenas no estado do Amazonas. A qualidade do ar em toda a região e além dela foi deteriorada pelas queimadas, aumentando as doenças respiratórias. Não podemos, em 2026, repetir os erros de 2024.

Em Manaus, maior cidade amazônica, as cheias recordes de 2021 e 2022 causaram impactos severos. A vulnerabilidade social provocada pela destruição de moradias seguida de altas temperaturas nas favelas, onde vivem 53,9% da população, é insustentável. A infraestrutura urbana é incapaz de suportar as chuvas que aumentam os níveis dos igarapés. E a disrupção climática torna dados históricos insuficientes para desenvolver projetos futuros.

Como todo o país, Manaus precisa transitar urgentemente da lógica reativa atual para a antecipação, adaptação e resiliência com o urbanismo climático. Esta estratégia interdisciplinar integra modelos hidroclimáticos preditivos do satélite ao m3 em gêmeos digitais (4D: x, y, z e t-tempo) na avaliação de riscos e testes de projetos de resiliência a novos sistemas de governança e políticas públicas inclusivas.

Esta abordagem é de 5 a 7 vezes mais barata por unir estruturas cinzas a soluções baseadas na natureza e gestão urbana inteligente com dados meteorológicos no controle d’água junto a vegetação para drenagem e segurança térmica e ainda acoplar energia limpa em suas estruturas multifuncionais. Não podemos enfrentar os desafios climáticos do século 21, com o urbanismo e estruturas do século 20 e instituições do século 19.

O Super El Niño em formação traz uma amostra da gravidade do novo clima. A urgência do desafio inevitável de adaptação e resiliência é existencial mas também a oportunidade de virar o jogo pela superação da crise climática, abrir novas fronteiras para a liderança do Brasil na geopolítica e exportação de produtos e serviços da economia verde e nos tornar um país desenvolvido. O futuro é agora.

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