País mostra que ajuste baseado em controle de gastos pode ser menos recessivo do que se supõe

Economista, foi presidente do Banco Central do Brasil por seis anos. É vice-chairman do Nubank e mestre em economia pela universidade UCLA

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O sucesso raramente nasce do zero. Mais frequentemente, vem de aprender com os acertos alheios e evitar erros já cometidos. A Argentina e o Brasil compartilham história, geografia e muitos dos mesmos dilemas estruturais. Por isso, o que ocorre do outro lado da fronteira merece atenção. Não como modelo a copiar, mas como experiência a observar. Nos últimos dois anos, a Argentina implementou um conjunto ousado de reformas liberais que começa a produzir resultados concretos. Há lições ali que valem o exame cuidadoso.

O ponto de partida importa para entender a magnitude do que foi feito. No fim de 2023, a Argentina chegou ao limite: inflação acima de 200% ao ano, déficit fiscal relevante, 15 anos de estagnação econômica e pobreza em crescimento acelerado, atingindo metade da população. As reservas internacionais eram negativas. O país convivia com um ciclo já familiar: expansão fiscal, inflação, crise, correção incompleta e recomeço. Havia uma demanda popular inequívoca por mudança.

A agenda estruturou-se sobre cinco pilares: equilíbrio fiscal, liberdade econômica, respeito aos direitos de propriedade, segurança pública e inserção internacional. O eixo central foi o fiscal. Em menos de um ano, o déficit nas contas públicas de mais de 5% do PIB converteu-se em superávit, de acordo com o FMI —o primeiro em 15 anos. O gasto público caiu cerca de cinco pontos do PIB. O resultado contrariou uma percepção comum: em vez de recessão persistente, a economia retomou crescimento com vigor: 4,4% em 2025, após contração inicial. Para 2026, a projeção é de um crescimento de 3,5%.

É verdade que o contexto de inflação elevada facilitou o início do ajuste. Mas o que importa estruturalmente —e é aí que reside a lição mais relevante— foi a mudança na composição do Orçamento, com ajuste nos gastos. Há respaldo acadêmico para esse padrão. Alberto Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi, em seu livro "Austerity", demonstraram, com evidência empírica robusta, que ajustes com credibilidade baseados em corte de gastos produzem melhores resultados e podem ser expansionistas. Quando o Estado deixa de gastar, os recursos permanecem no setor privado, que os aloca com mais eficiência.

A inflação, que superava 200% ao ano, recuou para uma taxa mensal de menos de 3%. O risco-país caiu de mais de 2.000 para menos de 500 pontos. O efeito mais poderoso e relevante foi social: a pobreza, que havia disparado e alcançado 52,9%, recuou para 28,2% no segundo semestre de 2025 —porque a inflação, ao ser debelada, deixou de funcionar como o imposto mais regressivo da economia, aquele que corrói primeiro a renda dos mais pobres.

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Os pilares de liberdade econômica e direitos de propriedade traduziram-se em desregulação intensa: mais de 15.500 normas revogadas, obrigações que, na maioria dos casos, serviam menos ao interesse público do que à preservação de privilégios. A lógica é precisa: cada regulação desnecessária é uma barreira que protege incumbentes, onera pequenas empresas e reduz a concorrência.

Dois casos ilustram bem. A internet via satélite estava proibida por pressão de grupos com interesse no monopólio da conectividade. Liberada nos primeiros dias do governo, alcançou 3 milhões de usuários, grande parte em regiões sem alternativa. No mercado de aluguéis, a remoção dos controles de preço resultou em queda de 30% nos preços reais e aumento da oferta —o oposto do que os defensores da regulação previam.

No campo da segurança, em 2024 a Argentina registrou taxa de homicídios de 3,8 por 100 mil habitantes, a menor da América do Sul e a mais baixa desde o início das estatísticas nacionais. Na inserção internacional, avançou na abertura comercial, com destaque para o acordo Mercosul-União Europeia, e na atração de investimentos em energia e mineração. As exportações cresceram 34% na comparação interanual, na informação mais recente divulgada.

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