País faz parte de grupo de referência em pesquisa da área, ao lado de Alemanha, China, EUA e França
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro
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Há uma área em que o Brasil brilha e pode brilhar mais: a matemática. Desde 2018 fazemos parte do seleto "Grupo 5" da União Matemática Internacional, que reúne as nações mais desenvolvidas em pesquisa matemática. Estamos ao lado da Alemanha, da China, dos EUA e da França. Lá, somos o único país do hemisfério Sul.
Não temos Prêmio Nobel, mas temos a medalha Fields, igualmente importante, conquistada pelo brasileiro Artur Avila em 2014. É nossa maior conquista em ciência brasileira até hoje.
Respondemos por 2,35% da produção acadêmica em matemática global. Não é pouco, e o percentual está crescendo. As profissões ligadas à matemática correspondem a 4,6% do PIB brasileiro (pesquisa do Itaú Social) e geram inovação, empregabilidade e altos salários.
Por trás dessas conquistas está um trabalho de décadas, iniciado em 1946. No epicentro estão instituições como a PUC-Rio, o IME, o ITA e sobretudo o Impa, nosso Instituto de Matemática Pura e Aplicada criado em 1952, no Rio. Como diz a doutrina chinesa sobre o tema: "Toda potência mundial é necessariamente uma potência matemática". E o Impa é nossa joia da coroa nesse quesito.
A boa nova é que o Impa está prestes a inaugurar uma unidade em Teresina (PI). A razão é estratégica. Um quarto das medalhas da Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) vem do Nordeste. Cidades como Cocal dos Alves, no Piauí, são referência nacional na formação de medalhistas. Talentos regionais não vão precisar migrar para o Sudeste para poder brilhar.
A Obmep, aliás, é a maior olimpíada de matemática do mundo. Em 2025 contou com 18,6 milhões de estudantes, cobrindo 99,9% do território do país. Os medalhistas entram no programa de iniciação científica do CNPq, recebendo bolsas de R$ 300 por mês. Participam então de novas competições, que levam ao Impa. É um funil gigantesco de identificação de talentos.
Faço inclusive uma crítica amigável: em 2025 houve alunos desclassificados da Olimpíada porque usaram IA (inteligência artificial). A IA faz parte do futuro da matemática. Os modelos de inteligência artificial atuais não dominam plenamente a matemática. O futuro da matemática é justamente a integração entre os modelos de linguagem natural (LLMs) com computação simbólica (por exemplo, o Mathematica, da Wolfram) e verificação formal (como o Lean). Minha sugestão é que a Olimpíada crie uma categoria de IA e matemática, para receber os alunos que quiserem experimentar com essa junção.
Também vale lembrar que o Impa brilha por uma série de singularidades. Continuidade de gestão (teve apenas seis diretores desde 1952) e tecnologia institucional. Organiza-se como uma OS e pode contratar por CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e comprar equipamentos e serviços de forma ágil.
Por fim, o desafio do Brasil é enfrentar um paradoxo. Somos o único país que faz parte do cobiçado Grupo 5 e tem, ao mesmo tempo, 73% dos jovens de 15 anos abaixo do nível básico de matemática. Nesse sentido, é preciso qualificar: somos sim o país da matemática no topo, mas somos um deserto na base.
É possível mudar isso? Sem dúvidas. Falta o foco nos professores (a criação da Olimpíada de Matemática dos Professores é um avanço). E olhar as lições da Índia e do Vietnã, que têm criado impressionantes programas nessa área. E claro, construir nosso próprio caminho, que é a especialidade do Brasil que funciona. Mas só quando queremos de verdade.




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