Levantamento feito com dados do TSE mostra queda de 54% entre filiados de 16 a 34 anos desde 2010; polarização e descrença pesam.

A filiação de jovens de 16 a 34 anos a partidos políticos caiu 54% no Brasil entre 2010 e 2026, em um movimento que retirou quase 1,5 milhão de pessoas dessa faixa etária dos quadros partidários. O dado integra levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), feito a partir de informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Medeiros define a queda como “um dos mais expressivos processos de esvaziamento da militância desde a redemocratização”. Para o pesquisador, os jovens não deixaram de se interessar pela política, mas se afastaram da forma tradicional de atuação organizada pelas legendas.

A estudante Sophia Macedo, de 22 anos, acompanha a política desde a adolescência e tirou o título de eleitor aos 16. Aos 13, ela representou colegas no programa Vereador Jovem, da Câmara Municipal de Vassouras (RJ), e participou de um projeto que criou um espaço público para doação e empréstimo gratuito de livros.

Mesmo com essa trajetória, Sophia afirma que não pretende se filiar a partido. “Estar filiado a um partido é como torcer para um time de futebol: às vezes, é um afeto tão excessivo que beira o ódio contra quem não é do seu time. E, se o partido faz alguma coisa errada, assim como um time, você vai lá e tenta defendê-lo”, disse. Ela também avalia que a filiação virou um rótulo que dificulta o diálogo: “O outro passa a te perceber com preconceito pela sua filiação antes mesmo de tentar entender qualquer outra coisa sobre você. E eu não vejo vantagem nisso.”

A paulistana Laura Malaquias, de 22 anos, também não cogita entrar em uma legenda e diz que a filiação pode passar a ideia de adesão integral a um campo político. “Talvez os jovens não queiram se colocar nesse lugar de ‘eu sou de direita’, ‘eu sou do Bolsonaro’ ou ‘eu sou de esquerda, eu gosto do Lula’. Porque quando você diz isso, significa muita coisa. É quase como dizer: ‘eu concordo com tudo o que ele fala’”, afirmou. Ela relata desconfiança em relação à classe política e diz que seu contato com o tema costuma ocorrer por notícias sobre corrupção e escândalos.

Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, avalia que os partidos perderam capacidade de criar identificação com os jovens, com poucas exceções, como PSOL, Novo e Missão. “Há uma descrença total dos jovens na política convencional, uma sensação de que está tudo errado, de que todo mundo rouba. Por isso, o sentimento entre muitos jovens é o de uma mudança total do sistema. Eles estão acima da divisão entre direita e esquerda: são antissistema. É uma nova fase”, disse.

Medeiros também atribui o esvaziamento à dificuldade das legendas de acompanhar mudanças sociais e digitais. “Os partidos continuam funcionando como estruturas analógicas para uma geração que vive integralmente no ambiente digital. Hoje, muitos se assemelham a cartórios: possuem pouca vida orgânica, reduzida democracia interna, baixa renovação de lideranças e escassa capacidade de dialogar com os novos repertórios da juventude.”

O economista Gabriel Cassiano, de 29 anos, disputou eleições em 2018 e 2020, foi filiado ao PDT e chegou a negociar entrada no PSB, mas hoje não pretende voltar às urnas nem se filiar a uma legenda. “O que me fez realmente desistir foi que os partidos políticos no Brasil possuem uma estrutura anacrônica e viciada, que retroalimenta um sistema falido e de conchavos individuais e de grupos de lideranças já estabelecidas. Isso na direita e na esquerda”, afirmou.

Entre junho de 2022 e junho de 2026, os partidos perderam 419 mil filiados de 16 a 34 anos. O levantamento analisou os 15 maiores partidos e excluiu siglas incorporadas no período para evitar distorções: União Brasil, Cidadania, PSD, PP, PV, PSB, Republicanos, MDB, PDT, PT e PSDB encolheram entre jovens, enquanto PL, Novo, PSOL e Rede cresceram. O MDB aprovou regra para destinar ao menos 1% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha a candidatos de 18 a 34 anos, com divisão igual entre homens e mulheres.