José Eduardo Martins enaltece o desprendimento e sentido de missão de Passos Coelho. O antigo secretário de Estado diz que Chega "não serve" para PSD por não ser confiável para reformas à direita.

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E hoje na comissão de inquérito recebemos José Eduardo Martins, advogado, comentador político e também antigo governante, foi secretário de Estado do Ambiente. Bem-vindo, José Eduardo Martins.

Bom dia. Não sei se não estou um bocadinho receoso. Isto é uma comissão de inquérito.

Não sabe ao que vem? Pois não.

Não, não sei ao que venho, mas preparado para tudo.

Então é isso. Tem até às 10h para se ambientar. Vamos fazer cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Pode pedir ajuda. Se acertar, recebe dois pontos, se não acertar, não recebe nada. A ajuda são três hipóteses para escolher uma.

Boa. Não posso telefonar para casa?

Não. Ajuda do público, não é ajuda de casa. Colocámos um inibidor de sinal no estúdio, não pode ligar a ninguém.

Claro que sim. Aliás, a primeira pergunta é mesmo daquelas fáceis para isto começar bem, porque sabemos que é muito cedo. Quem disse, a propósito da lei laboral que foi apresentada pelo governo: "Por muito que vos custe, esta proposta vai ser aprovada"?

Está a ver os cinco pontos mais fáceis do mundo? Não foi.

Exato. Cinco pontos para mim, para o Hugo não.

Para o Hugo não. Que lições é que se deve tirar disto tudo?

Não vale a pena eu fingir. Eu ia tentar dar uma resposta um bocadinho mais composta, mas eu tenho disfarçado mal a minha alegria desde sexta-feira. É claro que tenho pena que o código laboral, ainda por cima numa versão relativamente soft, como era a desta mudança, em que havia três ou quatro coisas de facto importantes para a economia, mas que era o diz alguma coisa de direita. Finalmente, diga, como o Moretti passava a vida a pedir aos governos de Itália que digam qualquer coisa de sinistra. Vamos lá ver se este governo diz alguma coisa de direita. E o alguma coisa de direita até agora era o código laboral. E, portanto, na sexta-feira, eu ia dizer nesta redação, mas é em todo lado. Quem andou anos a dizer que o Chega era um parceiro confiável de governo, teve a resposta com todas as letras. Não, o Chega não é um parceiro confiável de governo para fazer reformas à direita. O Chega é um projeto populista na economia que não sacrificará um voto em função de nada que o país precisa. O Chega é um país justicialista na justiça. As linhas vermelhas que o PSD, e de resto viu-se na sondagem da semana passada com os eleitores PSD, não precisam de ser traçadas, são naturais. Eles nunca farão uma reforma que não seja popular. Isso não faz nenhum projeto político de direita conjunto. O Chega não serve para o PSD. E por muito que isso nos tenha custado, o que queríamos do código laboral, por muito que o Hugo se tenha enganado, por muito que tenhamos tido uma soberba de parecer que temos maioria absoluta, quando não temos, no fim do dia, foi uma pequena derrota para uma grande vitória esclarecedora, espero eu, para muita gente.

Então como é que entende?

O Chega não pode ser o parceiro do PSD porque não é um partido de gente. Para começar, não é bem um partido.

Mas o Hugo Soares este fim de semana no Congresso, disse que o Chega estava mais próximo do governo na prestação social única.

Pois, eu não sei o que é que vai acontecer aí. E se conseguirmos novamente, como no código laboral, que haja deputados suficientes para aprovar uma reforma de um governo que está em minoria, extraordinário. Agora, fazer disto um princípio de entendimento com quem se comportou desta maneira, aliás, sem surpresa nenhuma. Não pode haver um projeto político de reforma à direita com um partido que diz às pessoas que é possível baixar a idade da reforma, não é um partido de gente séria. Além, não é um partido, é um homem. Eu sei que há muita gente à direita que adora isso. Eu já ouvi antigos líderes da direita quando eu digo: "Que vergonha, um homem a mandar em 60 que deviam ser deputados livres." Agora nem os deixa participar nas eleições do partido. A novidade da semana passada é que os deputados são assim uns paus mandados do líder do partido. Agora ou são candidatos ou não vão às eleições do partido. Se isto acontecesse no PS ou no PSD, a vergonha que não era. E portanto, eu já ouvi líderes da direita dizer: "Que bom, um homem que manda em 60, é muito mais fácil fazer maiorias." Bom, então vamos lá ver, na prestação social única pode ser que venha daí alguma coisa.

Então, nesse caso, não havendo possibilidade de haver diálogo com o Chega, também não vai haver reformas nos próximos dois anos à direita.

Eu acho que vai ser difícil. O governo vai ter que ter uma atitude mais dialogante, procurar mais pontos, mas eu sinceramente acho isso de facto difícil, porque o PS na oposição também não se comporta de uma forma quase menos populista que o Chega. Enfim, é um partido do sistema um bocadinho mais responsável. E quando eu digo do sistema, é do sistema democrático, do sistema da transparência, do sistema da separação de poderes, do sistema que não é justicialista, do sistema que basicamente criou, apesar de tudo, um módico de evolução e de proteção para todos.

Muito bem, José Eduardo Martins, cinco pontinhos assim fáceis. Esta também é muito fácil. Qual é o maior fundo soberano do mundo?