Pesquisadora fez vaquinha para pagar visto de bolsa aprovada para mestrado na Austrália e foi alvo de deboche Arquivo Pessoal Uma pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) virou alvo de chacota nas redes sociais depois de pedir ajuda finan…
Por Poliana Casemiro, g1
28/07/2026 00h01 Atualizado 29/07/2026
A pesquisadora Talita Motta Beneli, da UFSC, virou alvo de deboche na internet após criar uma vaquinha online. Ela buscava financiar seu doutorado sanduíche na Austrália.
A estudante precisava de R$ 8 mil para pagar uma taxa de visto exigida pela universidade estrangeira. Esse custo não estava coberto pela Capes.
Uma influenciadora criticou publicamente o pedido de dinheiro, gerando ofensas contra Talita. Dias depois, uma rede de apoio ajudou a pesquisadora a atingir a meta financeira.
O episódio expôs a realidade de cientistas brasileiros, que vivem com bolsas, salários pagos por agências de fomento a pesquisadores, defasadas.
Vaquinha para bancar parte de doutorado repercute nas redes sociais
Uma pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) virou alvo de chacota nas redes sociais depois de pedir ajuda financeira para bancar a emissão de um visto para um doutorado sanduíche — quando parte da pesquisa é feita em uma universidade estrangeira.
Talita Motta Beneli, doutoranda em ecologia, foi aprovada para uma temporada de pesquisa em uma universidade na Austrália e finalização do doutorado no Brasil. O visto exigido pela universidade em que ela foi aprovada, no entanto, só pode ser emitido por meio de uma agência particular, e esse custo não estava entre as demandas cobertas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Pesquisadora fez vaquinha para pagar visto de bolsa aprovada para doutorado na Austrália e foi alvo de deboche — Foto: Arquivo Pessoal
Sem essa verba, ela recorreu a uma vaquinha online para arrecadar R$ 8 mil e pagar pelo processo. Com uma rede social fechada, de menos de mil seguidores, ela compartilhou o link com uma influenciadora que acompanha e que tem alguns milhões de seguidores nas redes sociais.
Horas depois, viu sua situação — sem ser identificada nominalmente — se transformar em assunto de um vídeo em que a influenciadora criticava quem pede vaquinha para "financiar sonhos", atraindo uma onda de ofensas nos comentários.
🔴 O episódio expôs um problema pouco discutido fora da academia: as dificuldades de quem faz ciência no país. Hoje, a maioria vive das chamadas "bolsas", os salários pagos por agências de fomento a pesquisadores enquanto desenvolvem seus estudos.
Algumas das principais são a Capes e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que pagam R$ 2,1 mil para quem faz mestrado a R$ 3,1 mil para quem faz doutorado.
Talita pesquisa comportamento de peixes para entender impacto de mudanças do clima nos recifes — Foto: Arquivo Pessoal
Por que a pesquisadora fez vaquinha?
A vaga de Talita veio pelo Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da Capes, que financia temporadas de pesquisa de doutorandos brasileiros em instituições estrangeiras. Pelo edital do programa, os benefícios cobertos pela bolsa são:
mensalidade;auxílio deslocamento, que inclui o voo, por exemplo;auxílio instalação, que prevê os primeiros custos de aluguel e da casa onde vai passar os nove meses da pesquisa;auxílio seguro-saúde.
O próprio edital explica que taxas administrativas e acadêmicas, taxas de bancada e qualquer outra despesa adicional não entram na conta.
A pesquisadora explica que a maior parte desses custos, embora previstos, está defasada. O auxílio para passagem, por exemplo, considera algo em torno de R$ 8 mil, quando uma passagem de ida e volta para a Austrália, para a região aonde ela precisa ir, custa cerca de R$ 11 mil. Mesmo assim, conta que sabia de tudo isso antes de aplicar, já tinha feito as contas e, com alguns ajustes, seria possível seguir.


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