Crise em Ceuta mostrou como discursos anti-imigração fizeram a direita populista europeia crescer nos últimos dez anos

Quando as mais de 70 mil pessoas que cruzaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta, em julho deste ano, já estavam de volta ao seu país de origem, a crise diplomática em torno do assunto estava apenas começando. Com a atenção voltada para o exclave espanhol, o episódio rapidamente fortaleceu o discurso anti-imigração. Em um momento em que França, Itália e Alemanha aquecem as turbinas para eleições decisivas, o populismo de direita europeu busca ganhar ainda mais força ao usar essa agenda como bandeira eleitoral.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, foi uma das primeiras autoridades a se manifestar sobre a crise em Ceuta. Em suas redes sociais, a líder da direita italiana afirmou que a imigração descontrolada era uma ameaça para a segurança das fronteiras do continente.

Meloni também ordenou o restabelecimento de controles mais rígidos nas divisas com a Espanha.

Na Alemanha, Alice Weidel, líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), declarou que o país seria, provavelmente, o destino de muitos dos imigrantes ilegais que chegariam na Europa. Na França, a candidata à presidência Marine Le Pen, representante da direita radical, foi ainda mais enfática ao dizer que a legislação espanhola permitia o avanço de imigrantes ilegais.

“Diante do afluxo maciço e coordenado de migrantes para a Espanha, incentivado pelo governo espanhol, a França deve, sem demora, reforçar os controles em suas fronteiras. E, em 2027, vamos pôr fim a essa loucura, reservando a livre circulação no espaço Schengen aos cidadãos da União Europeia”, escreveu Le Pen no X.

As declarações, vindas tanto de governos quanto de líderes políticos de partidos por toda a Europa, mostra como o populismo de direita tem utilizado a pauta migratória como um dos argumentos mais fortes em suas campanhas.

França e Itália enfrentam em 2027 eleições que vão definir o futuro governo dos países: Marine Le Pen briga pelo seu primeiro mandato e Giorgia Meloni pela manutenção de seu governo. Na Alemanha, apesar da distância para as próximas eleições, a eleição estadual da Saxônia, no mês que vem, pode colocar a ultradireita no poder a nível regional na Alemanha pela primeira vez desde a 2ª Guerra. Outros países, como Polônia, Holanda e Áustria vivem situações semelhantes.

De acordo com especialistas ouvidos pelo Estadão, a retórica central usada por esses partidos é que os imigrantes sobrecarregam os países à medida que utilizam sistemas públicos ou recebem auxílios após serem formalmente acolhidos, além de serem responsáveis pela alta da criminalidade.

Em um momento em que o continente vive uma alta constante no custo de vida - o preço das casas na União Europeia aumentou cerca de 10% mais rápido do que os salários nos últimos 10 anos, por exemplo -, a imigração virou uma espécie de bode expiatório para os problemas sociais enfrentados por esses países.

“A migração é frequentemente usada ou aparece como um substituto para outros temas relacionados a questões socioeconômicas, um proxy. Em muitos outros países há uma crise de moradia acessível, entre outras coisas. E o que tende a acontecer é que estrangeiros ou imigrantes são culpados pelo fato de os cidadãos não conseguirem encontrar moradia adequada”, explicou Helena Hahn, analista política do European Policy Center, ao Estadão.

A opinião pública nem sempre esteve a favor dos partidos anti-imigração. O que se vê, agora, é quase o inverso do que aconteceu em 2015, quando uma onda migratória levou mais de 1 milhão de pessoas a fugir da guerra civil na Síria para a Europa, principalmente.

No primeiro semestre de 2015, esses imigrantes tiveram apoio da população europeia, assim como de vários governos que criaram condições específicas para a distribuição dos recém-chegados pelo continente. Mas após alguns anos, os refugiados foram associados com uma ameaça ao estilo de vida. Um movimento semelhante aconteceu logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando quase quatro milhões de pessoas deixaram suas casas em 2022 em direção a outros países da Europa.

“A partir de um determinado momento, há uma mudança na opinião pública e passa-se a difundir um discurso de que os imigrantes estavam ali para colher benefícios do estado, para explorar o estado de bem-estar social europeu. Esse tipo de narrativa ganha força e os partidos de direita radical populista ou de extrema direita, em alguns casos, se fizeram valer dessa insatisfação”, afirmou Vinicius Bivar, professor de História Moderna na Universidade de Brasília.

Em 2015, a Alemanha era comandada por Angela Merkel, chanceler de centro-direita, e uma das responsáveis pelo programa de acolhimento dos refugiados. A AfD tinha, na época, apenas dois anos de vida e nenhuma representação efetiva na Alemanha e, após a chegada dos refugiados, o partido foi o único a se posicionar claramente contra as medidas de abertura de Merkel. Quando a população sentiu a sobrecarga dos serviços do país, a sigla usou a insatisfação como combustível para alcançar a sua primeira cadeira no parlamento alemão, em 2017.

Desde então, candidatos do partido ganharam mandatos em todas as eleições, a nível federal e estadual. Atualmente, 152 membros do parlamento são da AfD, a segunda legenda com mais eleitos no país.

O Brexit foi outro movimento europeu a usar a imigração como alavanca de legitimação. Os defensores do “leave”, que faziam campanha para o Reino Unido deixar a União Europeia, argumentavam que, fora do bloco, seria possível controlar melhor as fronteiras e o fluxo de pessoas que se mudavam para o território.

Durante o referendo, em 2016, o líder do principal partido a favor do Brexit, Nigel Farage, do Ukip, apresentou um cartaz que dizia “Ponto de ruptura: a UE falhou com todos nós”, em uma imagem com uma fila de imigrantes, quase todos de etnias não-europeias. O banner foi denunciado à polícia por incitação de ódio racial.

“Nos últimos anos, quando o debate migratório volta para o centro da pauta, temos um agravamento dessa percepção perante a opinião pública, em que se passou a entender que um imigrante é um imigrante, sem distinção entre quem solicita asilo e alguém que, por exemplo, é um migrante econômico, como parece ser o caso da maioria das pessoas nessa crise de Ceuta. A extrema direita foi muito bem sucedida em esvaziar essa distinção”, apontou Bivar.

As eleições dos próximos anos dão o tom da urgência da pauta. De olho nas campanhas, os candidatos se colocam como soluções para mudança em um momento em que governos de centro são acusados de serem incapazes de resolver a questão.

“Os partidos populistas nacionais estão ganhando força porque as intensas preocupações da população com a imigração em massa e a falta de controle nas fronteiras não estão sendo resolvidas”, afirmou Matthew Goodwin, professor de Ciência Política da Universidade de Kent, no Reino Unido.