Primeiro Oscar para mulheres nessa função reflete barreiras enfrentadas dentro e fora do set

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Géssica Brandino Repórter na editoria de Audiência, pós-graduada em jornalismo internacional (PUC-SP) e de dados (Insper)

[RESUMO] A direção de fotografia no cinema é dominada por homens: só 7% dos 250 maiores filmes de 2025 em Hollywood tiveram mulheres nessa função. No Brasil, apenas 20% dos longas exibidos em 2024 contaram com a concepção visual assinada por elas. Barreiras à presença delas incluem sexismo, salários menores e progressão de carreira mais lenta.

Enquanto a norte-americana Autumn Durald Arkapaw, 46, discursava em Los Angeles em março deste ano como a primeira mulher a receber o Oscar de direção de fotografia, pelo filme "Pecadores", Lílis Soares chorava no Rio de Janeiro assistindo ao feito.

Para a diretora de fotografia brasileira, a vitória de uma mulher negra, assim como ela, foi a demonstração de que é possível se destacar na carreira, embora o cotidiano no set de filmagem ainda seja marcado por discriminação.

Em um mercado que carece de regulamentação e recursos, o sexismo —colocado em foco pelo movimento contra a misoginia MeToo, impulsionado pelas denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein— tem dificultado o acesso das mulheres a postos na indústria cinematográfica, dentro e fora do Brasil.

A direção de fotografia está entre eles. Em 2025, apenas 7% dos 250 filmes com maior bilheteria nos Estados Unidos tiveram mulheres nesse cargo, segundo monitoramento da Universidade de San Diego sobre a sub-representação feminina em Hollywood. Autumn foi a quarta mulher e a primeira negra indicada ao Oscar de melhor direção de fotografia. A categoria existe desde 1929.

Apenas em 2018, contudo, veio a primeira indicação feminina, com a norte-americana Rachel Morrison, por "Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi". Depois vieram as das australianas Ari Wegner, em 2022, por "Ataque dos Cães", e Mandy Walker, em 2023, por "Elvis". Nenhuma delas foi premiada.

O ineditismo de uma vitória feminina na cinematografia em quase um século de premiação gerou interesse global sobre a diretora de fotografia. O Canadá liderou as pesquisas pelo nome de Autumn, e as Filipinas, país de origem da mãe da fotógrafa, apareceu em terceiro lugar, segundo o Google Trends.

Antes de receber a estatueta, Autumn já era notícia por ter sido a primeira diretora a usar uma câmera Imax 65 mm nas gravações do filme de Ryan Coogler. Ambos haviam trabalhado juntos em "Pantera Negra: Wakanda Forever" (2022). Na filmografia dela também está "A Última Showgirl" (2024), de Gia Coppola.

No Brasil, ser responsável pela fotografia de grandes projetos de ficção é algo raro para mulheres. Na última década, houve os casos da russa Evgenia Alexandrova, pelo indicado ao Oscar "O Agente Secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho, e da uruguaia Bárbara Alvarez, por "Que Horas Ela Volta?" (2015), de Anna Muylaert.

"O sexismo é um problema generalizado na área do cinema, mas existem alguns cargos mais problemáticos, como a direção de fotografia e a direção geral, por serem de comando. Há carreiras que são vistas como mais femininas, como direção de arte, figurino, maquiagem, porque tem essa divisão na sociedade, de que mulher gosta de decoração e não gosta de equipamentos", afirma a diretora de fotografia Fernanda Riscali, professora da ESPM.

Em 2024, apenas 20% dos longas-metragens exibidos em salas de cinema do país tiveram a concepção visual assinada por mulheres, de acordo com levantamento da UFF (Universidade Federal Fluminense) a partir de dados de exibição da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Apesar de longe da paridade, foi a melhor representação feminina desde o início do monitoramento, em 2014.

De acordo com a pesquisa, só em 2001 passaram a chegar às salas de cinema do país filmes com mulheres assinando a fotografia. Naquele ano, foram exibidos o drama "Tônica Dominante", de Lina Chamie, e "O Casamento de Louise", de Betse de Paula, ambos com fotografia de Kátia Coelho, e o documentário "Anésia: um Vôo no Tempo", de Ludmilla Ferolla.

"As mulheres fotografam um, às vezes dois filmes, e depois não conseguem permanecer fotografando. Temos um problema de ingresso e de permanência", afirma a professora da UFF e coordenadora do projeto, Marina Tedesco.