Ministério da Saúde quer acelerar registro de novas canetas junto à Anvisa e avalia adoção contra a obesidade. Até o momento não há nenhum remédio para tratar a doença no sistema público.

https://p.dw.com/p/5Hy5HAnúncioO Sistema Único de Saúde (SUS) não adota nenhum tipo de caneta emagrecedora no tratamento da obesidade. Não há, ao menos por ora, previsão para que esses medicamentos, considerados um importante avanço contra a doença, sejam incorporados à rede pública.

O Ministério da Saúde diz, em nota, que o tema tem sido uma das prioridades da pasta nos últimos meses.

Especialistas ouvidos pela DW afirmam que o SUS tem um histórico de dificuldades na adoção de políticas públicas contra a obesidade. Enquanto isso, a doença tem aumentado em ritmo acelerado no país.

Os dois pedidos, porém, foram negados. O Ministério da Saúde considerou que esses medicamentos trariam um alto impacto orçamentário, acima de R$ 8 bilhões.

Com isso, o Ministério da Saúde pediu prioridade à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no registro de medicamentos com os princípios ativos dos agonistas de GLP-1, semaglutida e liraglutida, esta última com patente expirada no final de 2024.

No fim de junho, o Ministério da Saúde começou um projeto-piloto em um hospital de Porto Alegre (RS) para ajudar a pasta nas decisões referentes ao uso de medicamentos com semaglutida no SUS.

Esse estudo, chamado Real-Bari, reúne 250 pacientes com obesidade grave, que passaram a receber gratuitamente o tratamento com canetas emagrecedoras. Essas pessoas foram escolhidas porque estão na fila para a bariátrica e precisam emagrecer para fazer a cirurgia.

O país nunca esteve tão perto de ter um medicamento contra a obesidade incorporado ao SUS, avaliam especialistas que há anos acompanham a situação do tratamento contra a doença.

"A semaglutida já chegou a custar cerca de R$ 1,4 mil. Hoje, com a quebra da patente, consegue comprar em promoção por cerca de R$ 330, com o similar. É uma grande diferença em comparação ao que já foi", afirma a médica, que é membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

Na nova proposta, a empresa limitou o acesso ao medicamento a pacientes com mais de 45 anos, sem diagnóstico de diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto. A empresa decidiu restringir a proposta após a negativa do ano passado, que era para um público amplo e foi considerada uma medida de custos elevados.

O período de avaliação e resposta da comissão sobre a proposta é de até 180 dias. Se a incorporação for aprovada, deve haver um processo de licitação.

Ainda que seja aprovada, o perfil dos pacientes pode ser revisto. "Isso ainda pode ser modulado pela Conitec, que pode dizer que identificou que um determinado perfil de paciente é mais adequado", explica Maria Edna.

"Esses medicamentos trazem benefícios adicionais, como redução da progressão da doença renal e redução de eventos cardiovasculares. Então, é realmente importante que a gente consiga ampliar cada vez mais o acesso para trazer esses benefícios a mais gente", argumenta o endocrinologista Paulo Miranda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SEBM).

"Esse tratamento também pode representar redução de custos do próprio sistema de saúde e da sociedade, como um todo, porque melhora a qualidade de vida e produtividade da pessoa", afirma Maria Edna.

O tratamento contra a obesidade, porém, não se restringe à medicação. Os especialistas frisam que é fundamental que o paciente receba acompanhamento nutricional e orientações sobre atividades físicas.

"A obesidade, assim como diabetes, é uma doença crônica e é necessário planejamento a longo prazo. E isso também exige atenção multiprofissional para que o paciente receba o tratamento adequado", diz Miranda.