O eurodeputado João Cotrim Figueiredo apontou que, na sua ótica, os líderes do Partido Social Democrata (PSD), do Partido Socialista (PS) e do Chega "estão ...
João Cotrim Figueiredo
O eurodeputado João Cotrim Figueiredo considerou, este domingo, que os líderes do Partido Social Democrata (PSD), do Partido Socialista (PS) e do Chega "estão muito mais preocupados com eleições do que com o país", numa altura em que, na sua ótica, Portugal precisa "de reformas como pão para a boca". Assumiu, além disso, que demitiria o ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves, face aos vários casos que têm vindo à tona e que remontam ao seu tempo à frente da Polícia Judiciária (PJ), mas que, tal como o primeiro-ministro, Luís Montenegro, não cederia à chantagem de uma moção de censura.
"As rentrées são o início do ano político. Ano novo, vida nova, diz-se no ano civil; no ano político também. Vejo com particular atenção as rentrées, principalmente dos partidos maiores, e fiquei desanimado e, se calhar, até preocupado. Acho que os portugueses também devem estar. Se formos a ver o que foi dito por Luís Montenegro no Pontal, José Luís Carneiro em Olhão e André Ventura em Santarém, estão muito mais preocupados com eleições do que com o país", contextualizou, no seu espaço de comentário na SIC Notícias.
O antigo líder da Iniciativa Liberal (IL) elencou que a estratégia do PSD aparenta passar pela defesa, evitando falar do que "possa prejudicar". "Não falem da Spinumviva, não falem de Luís Neves, não falem dos exames nacionais, não falem nada que possa prejudicar", atirou.
"O que é que Montenegro disse que queria? Disse que queria ficar 10 anos no poder, como [Aníbal] Cavaco Silva tinha ficado. Mas atenção, que Cavaco fez reformas. Aqui não estou a ver reformas nenhumas. E queria gastar o nosso dinheiro a comprar empresas; já anunciou a compra da REN, ninguém sabe muito bem para quê. Depois, também disse o que não queria. Não queria que o orçamento para 2027 fosse um grande problema e não queria fazer reformas, a começar pela reforma da segurança social", enumerou.
Por seu turno, a estratégia do PS é, para Cotrim Figueiredo, "deixar ver se o poder me cai no colo", sem levantar ondas, tampouco impulsionar reformas.
"Em Olhão, dois dias depois, o que é que José Luís Carneiro disse que queria? Queria calma; [António] Guterres também demorou algum tempo a chegar ao poder. Disse que queria chegar aos 35% nas sondagens e, depois, logo via. Também não vai fazer grandes problemas com o orçamento, porque duas das quatro condições já estão cumpridas, e as outras não serão muito complicadas. O que é que não queria? Não queria eleições tão cedo, porque acha que não está preparado, acha que as pessoas ainda não reconhecem nele um primeiro-ministro, e também não queria fazer reformas, a começar pela segurança social", explanou.
No caso do presidente do Chega, o liberal assinalou que André Ventura "quer chegar ao poder a toda a força", assim como "marcar a agenda mediática". Sublinhou, aliás, que a moção de censura ao Governo que o partido prometeu de entregar no Parlamento, na terça-feira, caso o primeiro-ministro não resolva a situação em torno de Luís Neves, será apresentada "para ser feita antes de 15 de setembro, porque assim ainda conta para a sessão legislativa que vai acabar agora".
"[Ventura] quer chegar ao poder a toda a força. Já percebeu que não está a conseguir crescer, portanto, olhou para o mapa eleitoral e viu que lhe faltavam os pensionistas. Veio com esta ideia mirabolante de reduzir a idade da reforma, que tinha um custo absolutamente incomportável e era uma irresponsabilidade total", recordou.
Nessa linha, o eurodeputado resumiu que "o PS não está preparado, nem está interessado a ir a eleições nesta altura, o PSD também não, e andamos aqui com toda a gente a tentar taticamente defender-se da data das eleições que mais lhe interesse".
"Precisamos de reformas como pão para a boca. Neste ano político que vai entrar agora, vai haver as eleições intercalares nos Estados Unidos, eleições presidenciais em França, eleições gerais em Itália, eleições gerais em Espanha, eleições gerais na Polónia, que hoje em dia é o principal pilar da NATO dentro da União Europeia (UE). Isto tudo pode mudar. Temos um esforço grande para aprovar o orçamento da UE até ao final do ano, e Portugal não se mexe? Com líderes políticos que se preocupam com eleições muito mais do que com o país, fico preocupado", reiterou.
O liberal frisou, ainda assim, que a IL anunciou "a apresentação da reforma de lei de bases da segurança social e de outras coisas durante o ano político", tratando-se "dos poucos partidos que anda a tentar fazer alguma coisa para mudar, para reformar, e isso não pode ser".
O comentador também felicitou o PSD por ter conseguido marcar a agenda mediática com a Universidade de Verão, apesar de ter ressalvado que, "infelizmente, o conteúdo nem sempre correspondeu à atenção que teve".
"No discurso de encerramento notou-se muito mais aquilo que [Montenegro] não disse, tentando fugir para o tema da educação, passando um pano por cima daquilo que foi um autêntico colapso do sistema informático na altura da primeira fase dos exames nacionais", indicou.
Cotrim Figueiredo assumiu, inclusive, que o primeiro-ministro não foi inocente em só ter abordado os problemas em torno dos exames nacionais durante a segunda fase, tendo em conta que "foi a segunda fase que correu efetivamente melhor do que a primeira".
E complementou: "No meu dicionário político, reformas não é alterar a forma de avaliar exames nacionais. Isso é uma alteração de um procedimento, é uma automatização. Tem benefícios, melhora, mas não é uma reforma. Reforma era alterar curricularmente o ensino secundário. Reforma é aquilo que hoje foi falado e que quero ver como vai ser concretizado, que é dar mais autonomia às escolas ou aos institutos de ensino superior."
Já questionado se, no lugar de Luís Montenegro, demitira Luís Neves, o ex-líder da IL confessou que, "chegado aqui, sim".
"Acho que não tem condições. Acho que, em retrospetiva, ter sido chamado para ministro da Administração Interna vindo diretamente da PJ, e sabendo o que hoje se sabe em relação aos procedimentos que superentendeu dentro da PJ, a informalidade que reinava naquela casa, acabou por destruir boa parte da reputação da PJ e está a retirar autoridade ao MNE, que já não tem lugar", concretizou.
No entanto, o liberal alertou que, "perante uma moção de censura que depende da sua demissão, obviamente que Montenegro não vai ceder a essa chantagem, e também não cederia".
O presidente do Chega, André Ventura, ameaçou apresentar uma moção de censura ao Governo na sequência das polémicas que envolvem o ministro da Administração Interna, Luís Neves, notando que o governante "não tem nenhuma autoridade". As reações à ameaça não tardaram a surgir. Afinal, o que foi dito?




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