Jocasta, a protagonista de "Vida Doçura", não tem esse nome à toa. Sua força transborda da ficção para a biografia de sua autora. Leia mais (06/27/2026 - 13h00)

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27.jun.2026 às 13h00

Anna Virginia Balloussier

Preço R$ 79,90 (176 págs.); R$ 34,90 (ebook) Autoria Natércia Pontes Editora Companhia das Letras

Jocasta, a protagonista de "Vida Doçura", não tem esse nome à toa. Sua força transborda da ficção para a biografia de sua autora.

Jocasta vive a meia-idade "sepultada em seu próprio passado", presa a uma memória calcificada do dia em que a mãe morreu. Ela tinha sete anos e era a menina magrelinha que amava Balão Mágico, Xuxa e Sérgio Mallandro. Ainda mal sabia ler. A notícia a atravessou "feito bruxa às gargalhadas no frio das férias de julho": nunca mais veria a mulher que a batizou com o nome da rainha que se enforcou em "Édipo Rei".

É a mesma tragédia grega que a mãe da escritora Natércia Pontes levou ao teatro. Atriz de origem, aquele foi seu primeiro e último trabalho na direção. A filha tinha nove anos quando ela se matou.

"Fiz esse jogo de mortes semelhantes", diz a cearense que, também pela Companhia das Letras, já havia lançado dois outros livros. "Como se a mãe de Jocasta já prenunciasse seu destino ao nomear a filha, deixando grudado nela um estigma como piche. O suicídio de uma mãe é um estigma tão brutal que perdura por gerações e gerações numa família."

Nos últimos anos, Natércia deixou algumas pistas literárias de como a ausência materna a moldou como autora. Já escreveu sobre a sensação de "mergulhar sem escafandro no rio Tietê" quando se propôs a debulhar à força "sentimentos preciosos e cobertos de espinhos". O exercício deu em "Vida Doçura".

Também já falou sobre o retorno de um vocábulo esquecido, quando engravidou das gêmeas Olga e Madalena, nove anos atrás: "Ai, como antes eu queria que a palavra mãe voltasse a ser um pássaro que sobrevoasse a minha sala". Voltou a ouvi-la ainda no pré-natal das filhas, quando começou a ser chamada de "mãezinha".

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O luto é ponto de partida e de chegada do segundo volume do que Natércia chama de Trilogia da Desordem —no primeiro, "Os Tais Caquinhos", ela lida com lembranças do pai. O meio desse caminho tortuoso é que faz da prosa de Natércia algo tão singular.

A narrativa contrapõe o trauma de uma filha marcada pela perda da mãe à rotina performática de Jovana, influenciadora digital que compartilha uma vida doméstica idealizada.

Jocasta sente uma conexão obsessiva com Jovana, chegando a refletir diante de seu espelho tripartido: "Somos uma? Somos duas? [...] Vivas ou mortas? Somos quantas?".

À primeira vista, as duas não poderiam ser mais diferentes. Jocasta tem uma rotina reclusa na quitinete que divide com seu gato, Argos Panoptes. Mais um batismo nada gratuito: é o nome do mítico gigante de cem olhos, que tudo via o tempo todo.

Ela passa boa parte do dia em seu sofá verde-maçã, arroxeando a boca com vinho barato e catalogando os contos que escreve em três categorias: Criança, Bicho e Montanha. Guarda-os em caixas de sapato no topo do armário.

Já Jovana, explica a autora, "veio dessas influencers do YouTube, um nicho colossal de tradwives que descobri quando estava tentando engravidar". São mulheres que emulam em estética e discurso a esposa tradicional: bela, recatada e do lar.