Mauro Maggioni: “Novo proprietário [HSG] e competências, mas em termos de América Latina, a ambição continua tão alta quanto antes Gabriel Reis/Valor O Bank of America, em um relatório deste ano, provocou uma polêmica ao avaliar que o mercado de tênis já teri…

O Bank of America, em um relatório deste ano, provocou uma polêmica ao avaliar que o mercado de tênis já teria atingido seu ápice depois de um ciclo de 20 anos de expansão. A Golden Goose, grife italiana de tênis de luxos, garante não se encaixar nesse cenário. “Crescemos a cada trimestre, e neste ano aumentamos a receita mais uma vez. Além disso, os pedidos que coletamos de nossos clientes mostram que o apetite pelo tênis Golden Goose ainda é muito alto”, disse ao Valor, Mauro Maggioni, presidente- executivo (CEO) para a América Latina. Ele esteve em São Paulo para a inauguração de uma nova loja da grife, no Mata São Paulo, no Complexo Cidade Matarazzo.

Os analistas do Bank of America apontaram que a indústria de artigos esportivos cresceu em média cerca de 9% ao ano desde 2007, com milhões de pessoas trocando sapatos sociais por tênis, conforme divulgou a Bloomberg. A entrada das grifes de luxo no mundo do “streetwear” e as linhas mais sofisticadas ou assinadas das marcas mainstream levaram o setor para outro patamar. Daqui para frente, contudo, haveria uma estabilidade, com a expansão anual entre 4% ou 5%.

No estudo da Global View Research, o mercado total de tênis foi avaliado em US$ 104,5 bilhões em 2025, com previsão de chegar a US$ 110 bilhões este ano. Até 2033 a estimativa é alcançar US$ 137,6 bilhões, com uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 3,2%. Entre os destaques do relatório está o interesse dos consumidores “por tênis premium que combinam o reconhecimento de marcas com design focado no conforto”, o que impulsionaria a demanda por “lançamentos de edição limitada, colaborações com designers e silhuetas sofisticadas de luxo urbano”.

“O mundo dos tênis é muito amplo. Marcas como On e New Balance estão no nível de entrada e estão crescendo, o que para mim é uma ótima notícia”, diz Maggioni. “Porque quando o cliente entende a importância, a qualidade e o valor agregado que um tênis pode ter, faz o upgrade para o Golden Goose, no patamar de luxo.”

A receita líquida da empresa em 2025 foi de € 734 milhões, um aumento de 15% em relação a 2024. As vendas diretas ao consumidor representaram 81% desse total, com alta de 21% ano a ano. No período, o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) foi de € 248,3 milhões, com uma margem de 34%. A rede de lojas próprias atingiu 232 unidades ao fim de 2025, com 17 novas aberturas no ano.

Quem migra para o tênis, muito provavelmente, nunca vai querer voltar para um sapato no cotidiano” — Lucas Cimino No primeiro trimestre deste ano, a receita líquida chegou a € 173,2 milhões, uma alta de 10% comparado ao mesmo período de 2025. As Américas tiveram um incremento de 14% no período, o que faz com que o continente tenha correspondido a 38% da receita global.

Na semana passada, o grupo de investimento HSG celebrou, em Milão, a consolidação da aquisição da Golden Goose. A compra foi anunciada em dezembro por € 2,5 bilhões, e o antigo controlador, o private equity Permira, se tornou minoritário. “Trata-se de novo proprietário e novas competências, mas em termos de América Latina, a ambição continua tão alta quanto era antes”, diz.

Com isso, a Golden Goose acelera sua internacionalização, incluindo a América Latina nesse processo. Este ano, além de São Paulo, a marca abre lojas próprias em Bogotá, na Colômbia, e em Lima, no Peru. No México já conta com dez unidades.

A marca tinha quatro lojas no país, duas em São Paulo (Iguatemi e JK), uma em Curitiba (Pátio Batel) e uma pop up (temporária) no Rio (Village Mall), que terá sua duração estendida. A diferença é que a nova butique no Complexo Matarazzo incorpora os serviços de customização e sapataria, o que permite ao cliente cocriar o modelo e fazer reparo nos tênis “para a vida toda”.

A marca foi fundada em 2000, em Veneza, pelos designers Francesca Rinaldo e Alessandro Gallo. Começaram primeiro com roupas e desenvolveram na sequência o tênis Super Star, cuja a estrela é o símbolo da marca. Os “sneakers” (para moda urbana e coleção) Golden Goose foram concebidos com uma aparência propositadamente desgastada, no conceito de “luxo na imperfeição”.

O segredo da marca está na conquista da geração Z, público que a indústria do luxo almeja para a perenidade do negócio, mas que exige mais transparência e valor real dos produtos. Hoje, a marca reúne 2,5 milhões de seguidores que se autointitulam como “Dreamers”.

“As pessoas gostam da Golden Goose não por causa do preço ou status. Mas porque fazem parte da comunidade, onde sentem que podem se expressar livremente”, diz ele. O best-seller Super Star custa a partir de R$ 4,1 mil.

Maggioni garante não ser tão caro quanto a marca Zegna e seu modelo Triple Stitch, por exemplo, ou quanto os “sneakers” da Louis Vuitton, mas mantém um preço premium, que seria justificado pelo artesanato. “Levamos mais de quatro horas para fazer um par de tênis, tudo feito à mão, na Itália, e com ingredientes premium.”

O conceito do modelo de loja do Mata São Paulo é uma resposta a “uma agenda de sustentabilidade ao permitir que os consumidores façam pequenas ações, como consertar seus sapatos para sempre”, diz.

Dessa forma, os consumidores compartilhariam com seus amigos, com as comunidades a abordagem de sustentabilidade e assim, “temos a esperança de educar e tornar as pessoas cada vez mais sensíveis a este tópico.”

A sustentabilidade, diz ele, é uma narrativa, mas não o objetivo final. “O mais importante é preservar a memória que o usuário tem com o Golden Goose. Então, é vínculo sentimental que estamos criando com o consumidor sempre que permitimos que façam um serviço de reparação.” Além disso, quando o usuário leva o tênis para arrumar, diz, acaba comprando mais um par.

A apoteose desse modelo será a nova loja de Milão a ser aberta até o fim do ano. Será “emblemática” com 2,5 mil m2 em Milão, onde terão não apenas as categorias principais, mas também oficinas de arte e artesanato para os clientes, como atelier de cerâmica, perfumaria etc.

A visão do CEO Silvio Campara é transformar a Golden Goose em “uma empresa de entretenimento, aonde as pessoas venham para fazer algo, aprender algo e se divertir.”

Trata-se de um “alongamento do alcance ao cliente. Seremos capazes de abordar um mercado endereçável maior com esta estratégia”, diz Maggioni. A marca passaria a ser definida como “craftainment” (craft + entretenimento)”.

O criador da multimarcas LK Store e fundador da galeria Zipper de arte contemporânea, Lucas Cimino, faz curadoria de tênis exclusivos, de tiragem limitada ou sem distribuidores no país, em sua loja em São Paulo. Por isso, as previsões de que o mercado esteja desacelerando não o incomodam. “Quem migra para o tênis, muito provavelmente, nunca vai querer voltar para um sapato no cotidiano.”