Exposição “Fashioning Chinese Women: Empire to Modernity” foi inaugurada no último domingo (14)
Compartilhar matériaSusan Mah sabia exatamente o que queria para sua versão de um "vestidinho preto". Era o final da década de 1940 na Califórnia, e, depois de anos encomendando roupas a alguns dos melhores alfaiates de Xangai e Hong Kong, ela havia aprendido algumas coisas sobre como fazer roupas por conta própria.
Foi assim que surgiu uma das peças mais surpreendentes do seu guarda-roupa: um cheongsam, ou qipao, com uma gola mandarim típica, mangas curtas e silhueta justa na altura do joelho, mas feito de — em vez de um tecido suntuoso com motivos chineses — uma estampa ousada em verde-limão com símbolos de inspiração maia.
“Acho que, se ela tivesse ficado na China… teria que se vestir de forma muito conservadora”, especula sua nora, Chere Lai Mah, de 78 anos, que, nas décadas desde o falecimento de Susan, estudou as centenas de peças de roupa pessoais que ela deixou, construindo um retrato a partir de histórias orais e detalhes que coletou de familiares e até mesmo da própria dona das roupas.
“Mas em Fresno, na Califórnia, ela queria se vestir de forma interessante, inspirada por Irene Dunne e Barbara Stanwyck, então começou a desenhar esses cheongsams híbridos sino-americanos”, disse Lai Mah, acrescentando que ela ia às compras em busca dos “tecidos americanos mais extravagantes”.
Susan, uma americana de origem chinesa de primeira geração, era uma mãe ocupada de 12 filhos que também ajudava na área de contabilidade da loja de discos da família. Mesmo assim, ela ainda encontrava tempo para costurar.
“Há outro com aristocratas franceses dançando, palhaços, rosas, bolinhas e listras. Ela fez dezenas desses vestidos. São divertidos. São elegantes”, disse Lai Mah. Os exemplares eram uma forma de expressão criativa.
O cheongsam de inspiração maia é um dos mais de 70 exemplos impressionantes de vestuário chinês do início ao meio do século XX em exibição em “Fashioning Chinese Women: Empire to Modernity” (Moldando Mulheres Chinesas: Do Império à Modernidade), uma mostra que inaugurou no último domingo (14) no Museu de Arte de Los Angeles (LACMA). A maioria das peças em exposição faz parte de uma coleção doada por Lai Mah ao museu em 2022, composta principalmente por vestidos que pertenceram a Susan, além de algumas peças de sua mãe, Li Zhang Huifang, que era uma grande amiga de Susan.
“A coleção documenta esse período de mudanças incríveis que as mulheres estão vivenciando”, disse a curadora convidada da exposição, Michaela Hansen, referindo-se à libertação social e à mobilidade que muitas mulheres experimentaram após a queda da dinastia Qing em 1912.
Dada a sua relativa riqueza por volta dos 35 anos, Susan, que nasceu na pobreza na província de Guangdong, conseguiu levar todos os seus figurinos consigo quando deixou Hong Kong em 1938, em meio à invasão japonesa da China. Muitos outros migrantes teriam dificuldades para fazer o mesmo — tornando ainda mais raro encontrar uma coleção tão grande de cheongsams pertencente a uma única dona (as peças também estão excepcionalmente bem conservadas, pois “felizmente o clima aqui na região da Baía de São Francisco é perfeito, sem a necessidade de um depósito sofisticado com ar-condicionado”, disse Lai Mah).
Hansen afirmou que, quando Lai Mah procurou o LACMA, ela tinha “procedência, as histórias, quem usava o quê, onde usavam, e isso é muito incomum na história da moda, e muito inesperado para uma instituição americana ter acesso à moda chinesa com essa história”.
Normalmente, acrescentou a curadora, os museus exibem trajes da corte do período da dinastia Qing, estilistas chineses contemporâneos ou moda ocidental inspirada no design chinês, em vez dos guarda-roupas de mulheres comuns. “Isso preenche a lacuna de algo que é difícil de coletar — e importante de coletar”, disse Hansen.
Lai Mah, uma artista que estudou têxteis a fundo e escreveu um livro sobre a história de sua família, lembra-se do primeiro cheongsam que Susan lhe deu em 1971.
A peça turquesa, com seus ornamentos em dourado sobre um brocado de seda, era “charmosa e aconchegante”, disse Lai Mah. Mas ela nunca a usou, preferindo utilizá-la como inspiração para uma série de esculturas que criou posteriormente como estudante na UC Berkeley.
A artista sorri ao se lembrar do motivo pelo qual Susan lhe deu a peça de presente. "Ela também havia dado seu casaco de pele para uma de suas outras noras, mas essa nora o transformou em uma manta para o colo, e talvez isso a tenha inspirado a pensar em presentear outra nora com suas peças."
Com o tempo, Lai Mah tornou-se a responsável por todo o guarda-roupa de Susan. E como os cheongsams são feitos sob medida — refletindo exclusivamente o gosto de quem os veste e a colaboração com os alfaiates —, a coleção revela como o estilo de Susan evoluiu de uma jovem para o de “uma ma


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