O deslocamento costuma ser compreendido pelo movimento: o momento em que as pessoas são forçadas a se mudar de um lugar para outro. No entanto, sob a perspectiva da arquitetura, esse movimento é apenas o começo do que vem a seguir. Uma casa pode precisar ser …
Escrito por Daniela Andino
Leia a versão original em inglês aqui.
Publicado em 28 de Julho de 2026
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Prancheta "COPY" copiarO deslocamento costuma ser compreendido pelo movimento: o momento em que as pessoas são forçadas a se mudar de um lugar para outro. No entanto, sob a perspectiva da arquitetura, esse movimento é apenas o começo do que vem a seguir. Uma casa pode precisar ser reconstruída, uma comunidade inteira realocada ou a vida cotidiana restabelecida em um lugar completamente novo. O que se perde com o deslocamento nem sempre é algo que a arquitetura possa simplesmente substituir.
Essa questão é particularmente relevante na América Latina, onde o deslocamento moldou comunidades sob diferentes circunstâncias e em diversas escalas. O que acontece depois depende do motivo pelo qual as pessoas foram forçadas a se deslocar, se elas podem retornar e do que resta dos lugares que habitavam. Algumas comunidades se reconstroem em ambientes familiares. Outras devem estabelecer a vida cotidiana em um novo lugar. Essas diferenças moldam o que é demandado da arquitetura.
O Equador oferece um exemplo claro do que a reconstrução pode significar quando o deslocamento decorre da destruição de moradias. Em 2016, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu a costa do país, deslocando milhares de pessoas e danificando habitações e infraestrutura em comunidades costeiras. Ainda assim, em muitas áreas rurais, as pessoas permaneceram conectadas à terra e às estruturas sociais ao seu redor.
O Protótipo de Habitação Rural Pós-Terremoto, desenvolvido pelos escritórios AL BORDE e El Sindicato Arquitectura, parte dessas condições preexistentes. Sua base estrutural de compensado resistente a terremotos oferece um esqueleto que pode crescer em etapas planejadas e se adaptar a diferentes terrenos. Em Los Horconcitos, a caña picada (bambu partido) e o bahareque (taipa de mão) formam as paredes. A orientação responde aos ventos predominantes, à privacidade e às vistas para a paisagem circundante. Desse modo, o mesmo sistema estrutural pode assumir diferentes configurações espaciais e de materiais, conforme o local onde é construído.
A reconstrução assume outra escala quando a perda de moradias afeta bairros inteiros. No Chile, os incêndios florestais de 2024 atingiram áreas residenciais em toda a região de Valparaíso, incluindo El Olivar, onde a perda de habitações gerou a necessidade de uma reconstrução permanente em maior escala. Posteriormente, o bairro tornou-se o local de um projeto-piloto do escritório ELEMENTAL, que investigou como a pré-fabricação poderia agilizar esse processo.
A proposta combina a construção pré-fabricada com uma nova configuração de moradias. Quatro residências anteriormente distribuídas de forma isolada, como casas térreas, são organizadas verticalmente em uma estrutura de média densidade construída com módulos de aço pré-fabricados. A produção fora do canteiro de obras (off-site) reduz o tempo de construção, enquanto a nova configuração abriga múltiplas famílias no mesmo terreno. Nesse caso, o método construtivo e a tipologia habitacional operam em conjunto, vinculando a rapidez da reconstrução à própria organização das moradias.
Em São Paulo, a urbanização da Favela Nova Jaguaré exigiu que famílias que viviam em encostas íngremes, expostas a riscos ambientais, fossem reassentadas em áreas mais seguras. O reassentamento mudou mais do que apenas a localização de suas casas; ele também alterou a relação dessas pessoas com um ambiente residencial consolidado, estruturado por ruas, vizinhos e caminhos cotidianos.
Residencial Alexandre Mackenzie, projetado pelo escritório Boldarini Arquitetos Associados, responde a essa condição por meio da organização de um novo tecido urbano. Blocos de apartamentos e casas sobrepostas introduzem diferentes tipologias habitacionais. Ruas, vielas, rotas de pedestres e espaços abertos estruturam o conjunto e o conectam ao bairro vizinho. Espaços coletivos integram-se a essas redes de circulação, estendendo a vida residencial para além da unidade individual. A habitação torna-se parte de um sistema espacial mais amplo que conecta residências, espaços compartilhados, deslocamentos diários e o entorno urbano.
Em outra região do Brasil, a construção do complexo hidrelétrico de Belo Monte, ao longo do Rio Xingu, gerou uma forma diferente de deslocamento. Sua implantação transformou um território onde a vida cotidiana estava intimamente ligada ao rio. Comunidades ribeirinhas foram deslocadas de locais onde a moradia, a pesca, o cultivo, o transporte, o trabalho e a convivência social coexistiam em um mesmo sistema territorial.
Os Reassentamentos Urbanos Coletivos, conhecidos como RUCs, realocaram as famílias em novas moradias, alterando a relação entre casa e território. Unidades padronizadas ofereciam possibilidades limitadas de adaptação às diferentes necessidades de cada núcleo familiar. A distância em relação ao rio separou a vida doméstica de atividades e redes de relações que antes ocorriam de forma integrada a ele. O caso de Belo Monte evidencia os limites de se tratar a moradia apenas como uma resposta ao deslocamento. Prover uma nova habitação não restaura, necessariamente, os vínculos entre lar, subsistência, paisagem e território.
Em Pereira, na Colômbia, o bairro de Plumón Alto tornou-se o lar de famílias deslocadas de diferentes regiões do país pelo conflito armado interno. À medida que as pessoas se estabeleciam ali, as necessidades passaram a ir além da moradia, demandando espaços voltados para a educação, atividades culturais e vida comunitária. A Casa Ensamble Chacarrá, projetada pelo escritório Ruta 4 Taller de Arquitectura, surgiu nesse contexto como um espaço compartilhado, construído com a participação ativa de moradores, moradoras e organizações locais.
A arquitetura utiliza um sistema leve de estruturas de bambu guadua, esterilla (esteira de bambu), telhas onduladas de zinco e materiais reaproveitados que puderam ser montados com recursos limitados e mão de obra comunitária. A estrutura define um interior aberto e flexível, capaz de abrigar programas educacionais, artes, reuniões e outros usos coletivos. Em um assentamento formado por pessoas deslocadas de diversas regiões, a Chacarrá oferece um espaço comum moldado tanto por seu processo construtivo quanto pelas atividades que continua a acolher.
Esses casos demonstram por que o deslocamento não pode ser abordado como uma condição arquitetônica única. Reconstruir após um terremoto, reestruturar bairros após um incêndio, transferir famílias de áreas de risco ou reassentar comunidades longe dos territórios que sustentavam seu sustento — cada situação gera necessidades espaciais distintas. A resposta arquitetônica varia conforme as circunstâncias do deslocamento e as relações com o lugar que podem ser mantidas, adaptadas ou que precisam ser estabelecidas novamente.
A arquitetura pode responder em diferentes escalas, desde sistemas construtivos e tipologias habitacionais até estruturas urbanas, espaços coletivos e relações com o território. Projetar para o deslocamento exige identificar onde e como intervir: adaptando um sistema de construção, reorganizando moradias, estabelecendo conexões em um novo tecido urbano ou criando espaços para a vida coletiva. Implica também reconhecer quando os sistemas que sustentam a vida cotidiana extrapolam o que a arquitetura, por si só, é capaz de reconstruir.
Este artigo é parte do Tema do ArchDaily: Arquiteturas de Movimento: Território, Fronteiras e as Políticas de Pertencimento. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade por meio de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a saber mais sobre os Temas do ArchDaily. E, como sempre, no ArchDaily valorizamos as contribuições de nossos leitores e leitoras; se você deseja enviar um artigo ou projeto, entre em contato conosco.
Este artigo foi escrito por Daniela Andino. A tradução é gerada por IA.
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