O Ginásio Educacional Tecnológico (GET) IV Centenário, na Maré, é finalista e a única instituição pública do Rio na categoria Superação de Adversidade no Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026 (World's Best School Prizes), conhecido como o "Mundial das Escolas". Mas, afinal, o que fez a escola municipal receber esse reconhecimento? Afirmação: projeto leva cultura ballroom ao Complexo da Maré e usa dança para falar sobre gênero e diversidade 'Herus vive': projeto
O Ginásio Educacional Tecnológico (GET) IV Centenário, na Maré, é finalista e a única instituição pública do Rio na categoria Superação de Adversidade no Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026 (World's Best School Prizes), conhecido como o "Mundial das Escolas". Mas, afinal, o que fez a escola municipal receber esse reconhecimento?
Afirmação: projeto leva cultura ballroom ao Complexo da Maré e usa dança para falar sobre gênero e diversidade'Herus vive': projeto leva saúde mental ao Santo Amaro após morte de jovem durante operação policial em festa junina
Robótica, inteligência artificial e cuidado com saúde mental dos alunos dividem espaço com matemática e artes na rotina do GET. A escola alcançou 97% de alfabetização na idade certa e zero evasão escolar, segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME). Aluno do GET IV Centenário, Sérgio Rodrigues, de 10 anos, já recebeu sete medalhas em competições de matemática. No ano passado, ele programou um robô que acena e diz tchau.
— Já aprendi no microbit (de programação). A gente programa no MakeCode (site para criar códigos) — conta ele.
No Colaboratório, sala equipada com impressoras 3D, cortadora de vinil e caneta 3D, os estudantes investigam problemas reais da comunidade e criam soluções. Sérgio explica como funciona a caneta 3D, um dos equipamentos que mais chama atenção dos alunos:
— Você põe um filamento, aí ela esquenta uns 200 graus. Você vai desenhando primeiro em 2D, aí passa várias camadas por cima — descreve o menino, que também toca violino na orquestra da escola.
O que acontece no Colaboratório
Além do microbit e do MakeCode que o Sérgio já usa, o Colaboratório abriga projetos que misturam programação, história e identidade comunitária. Um dos mais ambiciosos é um mapa interativo do Complexo da Maré: as crianças pesquisaram a história de cada favela, gravaram a própria voz narrando o que descobriram e programaram tudo em Scratch. Quem aperta o botão correspondente ao Morro do Timbal, por exemplo, ouve: "O Morro do Timbal nasceu em 1940. A primeira moradora foi a Orozina."
— A criança que mora na Maré muitas vezes não pode passar para o outro lado por causa do conflito. Na tela interativa, ela conheceu o Complexo da Maré inteiro — conta Alessandra Aguiar, diretora do IV Centenário.
Com óculos de realidade virtual, os alunos visitam pontos turísticos do Rio que muitos nunca puderam conhecer fisicamente. A turma de quarto ano fez ainda um stop motion sobre a história do Complexo da Maré, com uma criança dentro da animação percorrendo o trajeto do mundo até chegar à escola.
— Ensinamos como usar a IA com ética. A gente orienta como dar o comando certo, o que pesquisar, como avaliar o resultado. O celular na escola está proibido, mas a tecnologia e a imaginação, não — explica.
A turma do quarto ano usou ChatGPT e Suno para compor a música-tema da escola, a "Fábrica de Sonhos". Mas o processo não foi simplesmente pedir para a IA criar. Os alunos fizeram uma chuva de ideias, escolheram o que queriam que a música dissesse, trabalharam rimas, ajustaram a letra gerada pelo ChatGPT palavra por palavra — e só então escolheram o ritmo no Suno.
— Eles tiveram que conhecer ritmo para poder escolher. A gente tem a música em forró, numa batida mais calma. Eles fizeram escolhas — conta Alessandra.
Essa escolha, porém, não é gratuita. Ela responde a uma desigualdade concreta: o que para uma escola particular seria uma decisão simples, para o GET IV Centenário exige criatividade e tecnologia como alternativa.
— Se fosse numa escola particular, era muito fácil eu pegar mil, dois mil reais, que hoje é o valor de um ônibus, e sair com eles da Maré para fazer passeios. A gente não tem essa facilidade. Então a tecnologia não é um luxo aqui, é uma forma de garantir que essas crianças conheçam o mundo — diz Alessandra.
Este ano, a escola conseguiu levar turmas ao cinema, ao teatro, a um concerto e ao museu. Numa saída voltada ao trânsito, uma aluna com deficiência visual questionou como atravessaria as ruas do Complexo da Maré, que não têm semáforo. A pergunta virou projeto: a turma hoje debate melhorias no território a partir do Programa de Aceleração do Cresciemento (PAC), o programa federal de urbanização que atende a região.
Dominar a tecnologia
Para o secretário municipal de Educação, Hugo Nepomuceno, a escola não está ensinando tecnologia, mas não sendo dominado por ela.
— A linguagem do mundo de hoje é a linguagem da programação. Hoje, quem está dominando o mercado é quem sabe construir códigos, quem domina o que está por trás do dispositivo. A gente quer que o nosso aluno domine a tecnologia, não seja dominado por ela — explica.
O modelo por trás dessas atividades tem nome: Ginásio Educacional Tecnológico (GET), rede criada pela Prefeitura do Rio em 2022 e hoje com 314 unidades na cidade — 118 delas em comunidades, sendo 13 só no Complexo da Maré —, segundo a SME. A meta é chegar a 500 unidades em toda a cidade até 2028.




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