Segundo aumento de preços da marca em 2026 reflete a alta do ouro, o fortalecimento do segmento premium e a crescente concentração de valor na alta relojoaria global

Enquanto boa parte da economia global continua enfrentando incertezas, um dos nomes mais influentes do mercado de luxo segue demonstrando força. A Rolex anunciou seu segundo reajuste de preços em 2026, movimento que chamou a atenção de colecionadores, investidores e especialistas da alta relojoaria em todo o mundo.

O aumento ocorre em um momento particularmente relevante para o setor. O ouro ultrapassou recentemente a marca de US$ 4.200 por onça troy, alcançando níveis historicamente elevados e pressionando os custos de produção de relógios fabricados em metais preciosos. Como consequência, diversos modelos da Rolex produzidos em ouro registraram reajustes próximos de 5%.

Mas para quem acompanha de perto o mercado de relógios de luxo, o movimento vai muito além do aumento das matérias-primas. Segundo Renan Bastos, que acompanha o mercado de relógios de luxo nos Estados Unidos (EUA), no Brasil e em outros importantes centros internacionais, o reajuste reforça uma tendência observada há alguns anos.

"O mercado de luxo opera de forma diferente da economia tradicional. O comprador de alta renda continua consumindo, mas está cada vez mais focado em exclusividade, qualidade e ativos que preservem valor ao longo do tempo."

Quando o Ouro Sobe, a Alta Relojoaria Acompanha

Historicamente, o ouro é visto como um dos principais ativos de proteção patrimonial do mundo. Em períodos de incerteza econômica, investidores costumam direcionar recursos para metais preciosos, aumentando sua valorização.

No universo da alta relojoaria, esse movimento possui impacto direto.

Relógios produzidos em ouro amarelo, ouro branco e ouro Everose carregam não apenas o valor da marca, mas também a valorização do próprio metal utilizado em sua fabricação.

Um dos exemplos mais comentados pelo mercado é o Rolex Daytona em ouro branco. Algumas referências do modelo acumularam valorização próxima de 33% desde 2024, desempenho que chama atenção mesmo quando comparado a outros ativos tradicionalmente associados à preservação de patrimônio.

Para Renan Bastos, a valorização desses modelos está ligada a uma combinação de fatores.

"Não é apenas o ouro. Existe também a escassez, a força da marca, a demanda global e a relevância histórica de determinadas referências. Tudo isso influencia a percepção de valor."

O Luxo Está Cada Vez Mais Concentrado

Os dados da indústria suíça ajudam a compreender essa dinâmica.

Atualmente, relógios com valor superior a US$ 25 mil representam aproximadamente dois terços de todo o valor exportado pela relojoaria suíça. O dado mostra que a maior parte da receita do setor está concentrada justamente nos modelos mais exclusivos e sofisticados.

Na prática, isso significa que o crescimento da indústria vem sendo impulsionado principalmente pelo segmento de maior valor agregado.

Esse cenário ajuda a explicar por que marcas como Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet, Richard Mille e Vacheron Constantin continuam registrando forte demanda internacional mesmo em períodos de desaceleração econômica em algumas regiões do mundo.

Segundo Renan Bastos, o mercado vive um processo de seleção natural.

"O comprador continua gastando, mas está sendo muito mais criterioso. Ele procura peças com relevância histórica, liquidez e reconhecimento global."

O Papel do Mercado Secundário

Outro fator que ajuda a entender os reajustes da Rolex é o fortalecimento do mercado secundário de relógios de luxo.