De Luanda aos bastidores da rádio portuguesa, Rui Pêgo fala da ameaça da desinformação, da polémica em torno da privatização da RTP e da forma como o digital tem vindo a mudar a comunicação.

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Já se propõe agora em setembro levar à discussão a privatização da RTP, que eu acho um disparate monumental. É um disparate porque este mercado não aguenta mais um privado.

Mais um player. Isso vai empobrecer cada um dos que existem, os chamados incumbentes, e isso vai criar mais fragilidades no mercado. Não me parece que essa seja uma solução. A solução era haver uma definição estratégica do Estado do que quer do serviço público e claramente pedir ao serviço público aquilo que é essencial para a defesa da democracia. Agora, o que me parece evidente é que é preciso reorganizar o serviço, sobretudo neste nosso tempo hoje, neste nosso tempo de mídia que vivemos, era preciso reorganizar o serviço. Eu não sei se a RTP precisa de ter quatro canais de televisão, ou cinco, não sei, mais Açores e mais a Madeira.

A questão das rádios também.

As rádios, não sei se precisa ter a RDP Internacional e também a três, não sei.

É uma espécie de arquiteto invisível. Passou as últimas quatro décadas a desenhar a banda sonora, a informação e a identidade daquilo que os portugueses ouvem quando ligam o rádio, mas quase sempre preferiu os bastidores ao fulgor dos holofotes. Nasceu sob o sol de Luanda, trocou a promessa de uma carreira estável na economia por um acidente feliz, chamado microfone, e acabou por se tornar um dos mais influentes diretores da radiofonia nacional. Na vida privada, habita um ecossistema rodeado por gigantes da comunicação e de exposição pública, mantendo-se ainda assim como um porto abrigo discreto. Hoje senta-se conosco para lá dos bastidores, um homem de afetos guardados, de pensamento estruturado e de uma elegância rara na comunicação portuguesa. Um homem também com grandes paixões para lá do jornalismo e que vamos conhecer ao longo deste Em 40 Minutos esta semana com Rui Peco. Muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado, bondade vossa.

Bem-vindo, Rui Peco. Que nos estava a dizer, João Miguel, em off: eu não tenho nada de interessante para dizer.

Pois não, acho que não, acho que já não tenho. Já tive, se calhar, noutro tempo.

Mas as pessoas não têm prazo de validade, ou têm?

Não, não têm. Isso é verdade, não têm. Mas eu acho é que a velocidade deste nosso tempo é de tal maneira que quem sai, quem fica mais na retaguarda, ainda mais na retaguarda, acaba por ser vencido por esta velocidade. Há hoje lógicas de reflexão sobre aquilo que é a nossa atividade dos mídia, que provavelmente eu já não tenho muita coisa pra acrescentar, digo eu. Eu acho que tenho.

Eu gosto de dizer que tenho lá em casa, ou melhor, gosto de pensar que tenho.

O espaço público também está cheio de gente que não tem nada para dizer, não é?

Pois, está bem, mas quem reflete sobre as coisas e quem pensa um bocado sobre as coisas, acho que tem quase a responsabilidade de ter que acrescentar algum valor àquilo que se reflete, à reflexão que é feita.

E foi por isso que o convidamos também.

Pois, vocês são bondosos.

Rui, e como é que um possível e quase CEO, que podia ter sido, se apaixona por rádio?

É quase um acidente, porque eu apaixonei-me em casa. Porque o meu irmão Jorge fazia rádio e eu ouvia, digamos que devotamente, e muitas vezes clandestinamente, porque havia lá umas bobines em casa e eu ouvia as bobines. E isso criou-me um entusiasmo em relação a esta atividade. E depois havia um programa em Luanda, produzido pelo José Maria de Almeida, que era o mágico da rádio, e que mobilizava o país, designadamente Luanda, que era a capital, porque era um programa que tinha uma audiência tremendíssima e fazia muitas ações no exterior e tinha a cobertura de grandes acontecimentos. E, portanto, digamos que eu às vezes participava a ver nessas iniciativas, e isso entusiasmou-me muito. Aquilo que o Zé Maria fazia à época, estamos a falar dos anos 70, do início dos anos 70, era verdadeiramente extraordinário. Era verdadeiramente extraordinário. Só para vos dar um exemplo, de pôr uma cidade inteira à procura da rolha, nos jardins da cidade e por aí fora. E era um programa que era às 20h30 da noite. Não havia televisão, atenção. Não havia televisão em África.

Mas ele pôs uma cidade à procura de uma rolha?

Exatamente. Ele tinha uma iniciativa que era a procura da rolha. E uma cidade inteira à procura da rolha, que tinha depois um prêmio, como é evidente. Mas era um bocado isso. Era um homem extraordinário, um mágico da rádio e que tinha essa capacidade de mobilização.