Todos os anos, o Brasil despeja cerca de 1,3 milhão de toneladas de microplásticos nos oceanos. Situação é crítica, mas existe saída
O conceito de microplásticos foi criado pelo biólogo marinho britânico Richard Thompson em 2004: eles são minúsculas partículas de até cinco milímetros de diâmetro. Em um planeta que usa plásticos a cada segundo, os fragmentos também estão presentes em todo lugar: nos mares, nos rios, nas nuvens e até dentro do seu cérebro e sangue – um estudo francês apontou que inalamos, em média, 70 mil partículas diariamente.
A longo prazo, o contato com os resíduos pode provocar prejuízos à saúde humana, incluindo inflamações crônicas, danos celulares e desregulação hormonal. Já foram encontradas partículas em amostras de esperma humano e até na placenta, exemplificando a complexidade da situação.
A existência dos microplásticos preocupa, e muito, a comunidade científica. Um dos maiores problemas está, justamente, na presença dos fragmentos nos mares. Uma pesquisa da ONG Oceana, divulgada em 2024, mostra que o Brasil despeja nos oceanos aproximadamente 1,3 milhão de toneladas de microplásticos por ano – cerca de 8% de todo o plástico descartado na água globalmente.
Outro estudo, liderado pelo Instituto Federal Goiano (IF Goiano), em Goiás, que faz parte do projeto MicroMar, e realizado em parceria com pesquisadores de várias universidades nacionais, encontrou as partículas em 69,3% dos litorais brasileiros.
No levantamento, foram coletadas mais de 4 mil amostras de sedimentos de 1.024 mil praias em 211 municípios de todos os 17 estados costeiros do país. Estima-se que mais de 90% da extensão litorânea brasileira foi investigada. Os resultados foram publicados na revista científica Environmental Research no ano passado.
Um levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que só 12% das 400 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano no mundo são incenerados, e apenas 9% foram reciclados. Boa parte do restante acaba nos mares. Estima-se que metade dos plásticos produzidos são feitos para serem usados uma única vez.
Sem movimento para reverter a situação, a organização espera que a quantidade de resíduos plásticos nos oceanos triplique e chegue a 29 milhões de toneladas em 2040.
Preocupa a comunidade científica que, além de serem jogados aos montes nos mares, os microplásticos têm decomposição longa, podendo durar centenas de anos. Além disso, pesquisas já mostraram que os fragmentos conseguem absorver elementos tóxicos, como mercúrio e arsênio, além de outros metais pesados.
Nos mares, os microplásticos grudam ou são consumidos sem querer por plânctons, a base da pirâmide alimentar, e vão passando por peixes pequenos, peixes maiores, tartarugas e até tubarões e baleias, sem contar as aves que se alimentam de peixes.
No organismo dos animais, o consumo dos fragmentos pode provocar sufocamento, desnutrição ou até a morte. A ingestão também pode levar a alterações comportamentais, prejudicando a capacidade de encontrar comida e atrapalhando processos importantes, como a reprodução.
A contaminação atinge animais que fazem parte da dieta humana, impactando a saúde dos bichos e a nossa. Microplásticos estão presentes em nove das dez espécies de peixe mais consumidas no mundo, incluindo peixes de riachos na Amazônia. A pesquisa da Oceana descobriu que 98% dos animais analisados tinham plástico no intestino e nas brânquias.
Retirar completamente os microplásticos dos mares é considerada uma tarefa impossível. Apesar de existirem muitas toneladas de fragmentos plásticos nos oceanos, eles estão escondidos em bilhões e bilhões de litros de água em diferentes profundidades no mundo inteiro.
Iniciativas de filtragem, por exemplo, são custosas e, por enquanto, pouco eficazes. A ciência estuda a criação de aerogéis, nanotecnologia e até alguns métodos biológicos para tentar mitigar o problema, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.
Dono de 7.367 km em linha contínua de litoral, o Brasil está começando a se organizar para tentar controlar a chegada de microplásticos ao mar e a quantidade de fragmentos que já está lá.
Uma das inciativas vem do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos. Os pesquisadores da instituição descobriram que as sementes da moringa, uma planta muito presente no país, podem ajudar a remover os microplásticos da água.
A única desvantagem é que a moringa acabou aumentando a quantidade de matéria orgânica dissolvida na água, que também precisaria ser retirada, tornando o processo caro em larga escala. Os cientistas continuam desenvolvendo a pesquisa para encontrar maneiras de utilizar as sementes com segurança, ainda que em volumes menores de água.
Outra estratégia usa a ciência nuclear e foi desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).
Os pesquisadores brasileiros desenvolveram um caminhão equipado com um acelerador de elétrons que pode ser utilizado para filtrar amostras de água contaminada por fragmentos plásticos. Na prática, o equipamento utiliza eletricidade para gerar energia. Em seguida, o líquido a ser filtrado entra na máquina e passa por um bombardeio energético que quebra moléculas poluentes da água, incluindo os microplásticos. Como resultado, os materiais produzidos são fragmentados em partes muito pequenas e sem a toxicidade anterior.
Segundo comunicado divulgado pelo Ipen, o caminhão já está em operação, podendo ser usado em indústrias e estações de tratamento, que geram e disseminam microplásticos nos oceanos. A unidade é capaz de tratar até 1 milhão de litros de água diariamente.
Outra alternativa que traz esperança é o uso da bactéria BR4, um organismo com capacidade de transformar o lixo plástico em bioplástico. A biotecnologia foi criada por pesquisadores da Universidade de Sorocaba (Uniso), em parceria com as universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal do ABC (UFABC), em São Paulo.